Pintura "Les Deux Amies", de Louis Jean François Lagrenée

Pintura “Les Deux Amies”, de Louis Jean François Lagrenée

“Vou pra folia sem nem me preocupar com camisinha. Sou lésbica e estou livre de DSTs!”. Errado, sapa desinformada! É uma tristeza a quantidade de lésbicas que diriam frases desse tipo, mas, infelizmente, não são apenas algumas reles mortais que pensam assim. Muit@s ginecologistas também ignoram os riscos aos quais lésbicas estão sujeitas no rala e rola. Pesquisas demonstram que de 40% a 60% das mulheres que fazem sexo com mulheres já tiveram pelo menos uma DST, e já existem vários registros de casos de AIDS em mulheres que se auto definem como lésbicas.

De acordo com José Carlos Riechelmann, médico sexologista e presidente do comitê científico da sexualidade humana da Associação Paulista de Medicina, as DSTs mais comuns entre a sapataiada são as infecções vulvares e vaginais por fungos (popularmente chamada de Candidíase), bactérias intestinais e as vaginoses causadas por uma bactéria de nome palavroso, a Gardnerella Vaginalis.

Existem duas DSTs que atualmente tem comportamento de epidemia: o HPV e a Sífilis. O HPV (papiloma vírus humano) provoca verrugas genitais e é o responsável por praticamente 100% dos casos de câncer de colo do útero!”, ele afirma. “E a sífilis, que estava razoavelmente controlada, vem aumentando de alguns anos para cá. A melhor maneira de lésbicas evitarem as DSTs é usando proteção específica (luvas, camisinha feminina), principalmente com parceiras eventuais, e buscar consultas ginecológicas de rotina”.

Só há um problema: o último conselho do doutor vai arrepiar os pelinhos do braço de muitas lésbicas. Isso porque são muitos os desafios relatados por lésbicas e bissexuais no atendimento ginecológico. Entre os principais, estão a abordagem automática partindo do pressuposto de que são heterossexuais (ofertas de camisinhas, pílulas, etc.), a errônea crença de que lésbicas não desenvolvem cânceres de mamas ou de colo uterino e até mesmo a recusa de examinar corretamente lésbicas que nunca transaram com homens com a absurda justificativa de que ainda são virgens. Foi o que aconteceu com a autora do blog “Lésbica: simples ou com gelo?”

Quando a médica me perguntou se já tinha estado com um homem, fiquei logo à espera do pior. Respondi-lhe que não, ao que ela reagiu dizendo, muito certa, ‘ah, então é virgem!’ Pensei: ‘lá vamos nós mais uma vez…’. ‘Não propriamente’, respondi. ‘Mas tem penetração?!!’ Os meus olhos já quase saiam das órbitas e eu do consultório. Precisei pedir enfaticamente que me observasse à vontade assegurando não ser virgem. Um absurdo!’, desabafa ela.

Uma brisa às periquitas

Que atire a primeira pedra aquela que nunca tremeu na base quando o assunto é levar sua periquita para se consultar. Vamos combinar que a grande maioria das mulheres encara a consulta ginecológica como uma pedra no sapato (necessária, mas altamente desagradável!). O que dirá daquelas mulheres que a cada consulta em um@ nov@ médic@ devem lembrar @ profissional de que deveriam perguntar sua orientação sexual antes do imenso questinário? Sim, pode acreditar que para nós, lésbicas, o drama é ainda maior. A urgência de um maior preparo para o atendimento à saúde LGBT em geral e a necessidade de conscientização de mulheres lésbicas sobre o cuidado com sua própria saúde sexual e reprodutiva vem movendo pesquisador@s de diversas universidades e o Sistema Único de Saúde (SUS) a tirar a poeira debaixo do tapete.

Pautados na máxima de que as discriminações estão entre os fenômenos que mais produzem desigualdades sociais, a UNASUS (Universidade Aberta do SUS) em parceria com a UERJ lançou no fim do ano mais um módulo do curso Política Nacional de Saúde Integral LGBT. Com mais de dez mil inscritos e vagas ainda abertas (http://www.unasus.uerj.br/?page_id=2020), o curso pretende disseminar o respeito à diversidade e dar mais ferramentas aos profissionais da saúde para exercerem um atendimento humanizado e qualificado à população LGBT, proporcionando-lhes maior qualidade de vida e garantindo seus direitos humanos.

“A saúde da população que se autoidentifica como LGBT (ou não se identifica assim, mas também não se considera heterossexual ou cisgênera) muitas vezes é negligenciada pelo SUS. Alguns sequer conseguem acesso com dignidade ao SUS. As razões disso vão desde as deficiências estruturais tradicionais do SUS até as práticas discriminatórias focadas na sexualidade ou na expressão de gênero.”, afirma Guilherme Almeida, coordenador do projeto. Ele defende que o papel do curso, como o de toda e qualquer ação socioeducativa, é sensibilizar, provocar a reflexão e fazer com que os participantes deixem de lado o lugar comum, instigando-os a buscar mais informação, a debater e a rever seus comportamentos.

Vale ressaltar o conteúdo específico relacionado ao atendimento ginecológico de lésbicas e bissexuais, além de outros aspectos gerais relacionados à homossexualidade feminina. “Nossa principal preocupação aí foi desconstruir estereótipos e estimular o diálogo entre profissional de saúde e usuária e desestimular comportamentos invasivos em relação ao corpo feminino presentes em muitas situações descritas na literatura científica sobre esse tema no Brasil”, complementa.

Desmistificando a saúde lésbica

Com o slogan “Cuidar da Saúde de Todos. Faz bem para a Saúde das Mulheres Lésbicas e Bissexuais. Faz bem para o Brasil”, o Sistema Único de Saúde lançou também  no ano passado uma campanha visando sensibilizar @s profissionais das áreas de saúde do SUS a oferecer um atendimento qualificado e humanizado especialmente às mulheres lésbicas e bissexuais. Almeida ressalta que tal campanha já era uma exigência do movimento de lésbicas em diferentes SENALES (Seminário Nacional de Lésbicas) nos anos 90 e foi reiterada ao longo dos anos 2000. “As ações de saúde destinadas a essa população sempre foram pífias, assim como as pesquisas em saúde sobre o tema. Uma campanha ajuda, dá visibilidade e põe o tema em debate, mas sozinha ela é insuficiente para mudar o quadro. Fortalecer, cobrar a implementação da Política Nacional de Saúde Integral LGBT em todos os seus aspectos e em todos os níveis do SUS, é fundamental e melhorará o atendimento de lésbicas e bissexuais.”, complementa.

Especialistas defendem que mulheres lésbicas, bissexuais e mulheres que fazem sexo com outras mulheres devem receber o mesmo tratamento ginecológico que qualquer outra mulher, tendo a abordagem da consulta focada nas práticas sexuais, e não na orientação sexual, que deve ser tratada pelo ginecologista como uma mera característica pessoal, como a cor dos olhos ou dos cabelos. Vale lembrar que é de extrema importância que @ ginecologista tenha conhecimento das práticas sexuais específicas de sua paciente, como alerta o doutor José Carlos.

“O compartilhamento de dildos e vibradores na menstruação e sem proteção, por exemplo, pode transmitir DSTs como a AIDS; a alternância entre parceiros homo e heterossexuais pode levar à gravidez, ao HPV, etc…; a existência ou não de sofrimento psíquico crônico (preconceito e rejeição) é fator de risco importante para quadros de ansiedade, depressão psíquica e depressão imunológica. Falhas no sistema imunológico, por sua vez, podem levar a infeções urinárias de repetição, candidíase de repetição, entre outros.”

Porém, a gente sabe que, na prática, sapa foge de gineco como o diabo da cruz. E isso não é um mero acaso. As maiores protagonistas da fuga são as enrustidas, mas não são apenas as que vivem no armário que evitam o bico de pato. Ponto negativo para nós! O doutor José Carlos defende que tal tendência é consequência, predominantemente, de um grande medo e uma grande ilusão. “O grande medo é que @ ginecologista seja uma figura que vá julgar ou condenar sua homossexualidade. Portanto, a melhor maneira de trabalhar com esse medo é encontrar um ginecologista com boa habilidade na relação médico-paciente, que deixe a mulher totalmente à vontade durante a consulta”.

Difícil mesmo é encontrar @ tal gineco-agulha-no-palheiro. Mais difícil que encarar o bico de pato é encontrar esse nome de luz no extenso (às vezes nem muito) livrinho do convênio – não vou nem comentar o tamanho da novela para quem depende do SUS, né, minha gente? Não são todas as que têm o dedo bom para escolher @ tal. Certamente, não foi o caso da professora Maia Silva*, 28 anos: “Minha pior recordação foi quando mudei de ginecologista por conta da mudança no plano de saúde e fui me consultar com uma médica já idosa. Quando ela ia pegando os instrumentos para me examinar, me perguntou se eu tinha uma vida sexual ativa. Quando respondi com a maior naturalidade que namorava uma mulher há mais de um ano, ela repentinamente largou os instrumentos que usaria para o exame e disse: ‘ah, ok, senta ali, vamos apenas conversar. Vou passar aqui umas guias para você fazer uns exames no laboratório, ok?’ E, após rapidamente preencher as guias com o mínimo de informação necessária, me encaminhou até a saída do consultório fechando a porta praticamente na minha cara. Me senti super agredida.”

Para algumas mulheres lésbicas, o exame do canal vaginal é um procedimento extremamente invasivo, perturbador e doloroso. O doutor José Carlos explica que essa reação é comum também entre mulheres heterossexuais com diferentes graus de vaginismo e opina que, para essas duas categorias de mulheres, é importante evitar a introdução do espéculo vaginal logo na primeira consulta, preferindo-se realizá-lo quando a relação ginecologista-paciente esteja com vínculo de confiança já estabelecido. E vamos combinar que dá pra maneirar na escolha do tamanho da ferramenta quando a paciente se mostrar desconfortável, não é, ginecos? Tem tamanhos para agradar a todas, vá!

Portanto, sapitas, bora carregar camisinha feminina e/ou luvas na saída pra folia e checar as periquitas frequentemente! Seguimos na esperança de que todas topem no futuro com profissionais melhor capacitados que favoreçam uma maior frequência das mulheres lésbicas e bissexuais aos consultórios ginecológicos, desmistificando a prática como uma tortura chinesa e dando-nos maior segurança e liberdade.

*Nomes fictícios