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Era o emprego dos sonhos. Quase o dobro do salário, cargo com mais responsabilidade, num setor no qual queria entrar há muito tempo… E ainda por cima o escritório ficava mais perto de casa! No dia em que assinei o contrato, disse a mim mesma na frente do espelho: “este vai ser o meu ano!”

Foi um dos anos mais difíceis da minha vida. Eu queria muito dar certo naquela empresa, não só porque parecia uma excelente oportunidade, mas porque tinha circunstâncias pessoais que me faziam depender do emprego. Então entrei lá decidida a me esforçar bastante, a me destacar. E, bem, quando uma pessoa como eu diz que vai dar o seu melhor, é porque ela vai mesmo. Sou bastante perfeccionista — e, ao contrário do que pregam os guias de como se comportar em entrevistas de emprego, isso não é exatamente uma qualidade: me cobro muito e fico mais abalada do que deveria quando cometo erros. Sou daquele tipo que, na escola, ficava chateada ao ganhar um 9,5. Focava mais no que tinha feito de errado do que no que tinha acertado. Mas, apesar de eu dar o meu melhor, por alguma razão, nada que eu fazia nesse emprego parecia bom o suficiente.

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Fui vítima de gaslighting no trabalho – termo que eu nem sei se outras pessoas empregam, mas que passei a adotar para descrever o que passei. Muito se fala sobre gaslighting em relacionamentos amorosos. É quando o seu parceiro ou parceira sente prazer em diminuir sua auto-estima. Te acusa de ser louca e exagerada, nas brigas você nunca tem razão. E a manipulação é tão eficaz que, com o tempo, você passa a duvidar de si mesma, perguntando-se se não estaria louca mesmo, se não está enxergando pêlo em ovo, se não está sendo dura demais. Acredito que o gaslighting pode acontecer também em outros tipos de relação, como amizades ou relações profissionais.

Meu chefe não me passava certas informações ou dava ordens imprecisas. Depois, me acusava de ser esquecida e desorganizada – muitas vezes, na frente dos outros. Chegava do nada em minha mesa dando bronca por não fazer coisas que ele nunca havia pedido ou que eram de responsabilidade de outras pessoas. Apesar do título bonito no cartão de visitas, ele me tratava como se eu tivesse muito menos experiência do que tinha. Frequentemente deixava de me consultar em assuntos que diziam respeito ao meu cargo. Interrompia minhas frases, como se o que eu estivesse dizendo fosse óbvio ou irrelevante..

Arranjava defeito no que eu fazia, mas quando um outro colega (geralmente, homem) fazia algo igual, dizia: “nossa, que ótima ideia, parabéns”. Quando eu cometia um erro, era o fim do mundo. Mas, quando um colega cometia erro parecido, sua reação era: “tudo bem, merdas acontecem”. Quando um colega fazia algo bacana, ele atribuía o resultado ao cara. Quando eu fazia algo bacana, o resultado era atribuído a ele mesmo, já que era ele quem me coordenava.

Certa vez, estávamos numa reunião para a qual a nova gerente de RH tinha sido convidada apenas nos minutos finais. Era o primeiro dia de trabalho dela. Meu chefe disse para cada pessoa à mesa apresentar-se à nova colega, falando seu nome e o que fazia na empresa. As pessoas foram se apresentando em sentido horário, o que faria de mim a última a se apresentar. Quando chegou minha vez e eu abri a boca para começar a falar, meu chefe deu a reunião por encerrada, levantando-se da cadeira e chamando a moça do RH para falar com ele a sós. Como se eu fosse invisível. Como se eu não importasse. Ficou tão chato que a primeira coisa que a nova colega fez ao sair da sala dele foi dirigir-se à minha mesa para saber quem eu era.

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Noutra ocasião, o conselho administrativo iria se reunir dentro de alguns minutos. Meu chefe apareceu na minha mesa me pedindo para preparar e levar café para eles. Olhei para ele espantada. Ele disse: “desculpa, mas é que a copeira está doente hoje e minha secretária também”. Não há nada de errado em servir café, não acho que isso seja inferior ou humilhante. Mas por que, na ausência da copeira, ele veio pedir isso para mim, que era gerente de comunicação? Por que eu? Pensei em dizer não, mas não queria agir como se estivesse diminuindo minhas colegas que servem café. Engoli seco e fiz.

Para completar o combo, houve um comentário de cunho sexual/de gênero também. Numa reunião a sós na sala dele, ele disse: “quero levar você em uma reunião com um cliente em potencial”. Pensei que era para fazer networking, já que trabalhava na comunicação. Mas ele prosseguiu dizendo: 

“Não me leve a mal, mas é que só tem homem lá e, se chega uma moça com um vestidinho que nem esse que você tá usando, acho que fica mais fácil de conseguirmos um contrato”.

Que essa última situação era pra lá de abusiva, era claro como água. Mas, de novo, não pude reagir. Fossem outros tempos, eu daria uma resposta bocuda, mas naquele momento realmente não podia ficar desempregada. Então me fiz de desentendida e mudei de assunto. Assim que voltei pra minha mesa, comecei a procurar vagas na Internet. Foi a gota d’água. Já estava infeliz pra caramba, se começasse a ter que aturar comentário objetificador, não iria aguentar.

E foi aí que me caiu a ficha de que as outras situações também eram abuso. Nem acredito em quanto tempo levou para que eu me desse conta disso. No começo, achava que era só um chefe com personalidade “difícil”, que era tudo uma questão de adaptação ao “estilo” dele. Aos poucos, passei a me culpar e duvidar da minha própria competência. Pensava: “o que está acontecendo comigo? Por que estou errando tanto? Mas eu sou uma anta mesmo!”. Eu checava tudo o que fazia várias vezes. “Será que não esqueci mesmo? Será que ele não falou mesmo isso e eu que não prestei atenção?”. Na maioria das vezes não, mas não adiantava dizer para ele que eu estava certa: ele só respondia com um olhar impaciente.

Até que me deparei com um texto sobre gaslighting no Facebook e me deu um estalo. Era ISSO que ele estava fazendo comigo! Ao me tratar como incapaz, fui aos poucos me acreditando incapaz. Mas ora essa, eu sou sim muito competente! Não tenho nada de burra! Já fiz tanta coisa na vida, nunca tive problema em nenhum outro lugar, por que passei a duvidar de mim mesma?

E aí é que tá: o gaslighting é sutil. É uma coisinha aqui, outra ali… Passamos oito horas por dia no trabalho, a pessoa não precisa te tratar mal toda hora para ser abusiva. Botando tudo junto neste texto, parece óbvio ululante que meu chefe passava dos limites. Mas, no dia a dia, em meio a tantas coisas para pensar e prazos para cumprir, as coisas ficavam mais nebulosas. Uma dica para quem passar por uma situação parecida: não se culpe por ter demorado a perceber que está numa relação de gaslighting com seu chefe, porque se culpar é exatamente o padrão nocivo de comportamento que ele te manipulou a ter.

A grande pergunta que sobra é: por que ele fazia isso comigo? Bom, isso só ele pode responder, mas acho que o contexto era propício. Sabe o que chamam de “síndrome do pequeno poder”? Então. Meu chefe sabia que eu tinha questões pessoais que me impediam de deixar o emprego. Mais velho e mais experiente que eu, com certeza também percebeu que eu entrei na empresa querendo agradar. Talvez eu também tenha demonstrado o quanto as críticas me afetam, embora sempre tenha tentado esconder. Tenho a teoria de que pessoas nefastas farejam quem está num momento delicado, com baixa auto-estima, frágil. É mais fácil controlar uma pessoa que não pode ou não  consegue dizer não.

Hoje, estou cumprindo aviso prévio e contando os dias para sair da empresa. Meus ombros, há meses doloridos, nunca se sentiram tão leves.

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