Hoje o Divã é da Adriana Caitano

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Q ual é a sua melhor lembrança de um seio? Aquele quentinho que chegava para matar a fome, dar amor e abafar o choro? Aquele que te acolhia para dizer que tudo estava bem e nada de mal ia te acontecer? Ou aqueles volumosos das revistas? Se você é mulher ou homem, hétero, bi ou homossexual, certamente tem uma história bem particular com seios. Os seus ou os de outras mulheres.

O seio pode ser uma das primeiras coisas que vemos na vida e até a última e, mesmo assim, ele ainda está rodeado de tabus e demonstrações de machismo. Parei para pensar nisso quando vi o curta “Seios Meus”, que me foi apresentado pela diretora de produção, a Amanda Marques. O filme já ganhou este ano o prêmio de melhor vídeo experimental do Independent Artist Film Festival de Los Angeles e melhor filme do Festival Internacional de Filmes Curtíssimos. É muito simbólico como podemos contar a história de uma vida com as memórias dos possíveis seios no caminho.

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Apesar de ter visto poucos, eu convivi com seios alheios com certa naturalidade e sem tanto pudor. A imagem da minha avó, já na velhice, expondo os dela a qualquer hora do dia pela casa ficou marcada para mim como um símbolo da liberdade que todas nós gostaríamos de ter, principalmente num dia de calor.

Mas passei muito tempo com vergonha dos meus. Era menina franzina, dessas que demoraram a se desenvolver. Aprendi na escola, com os colegas, que só seria mulher quando tivesse seios crescidos. Os meus eram miúdos, quase inexistentes. E isso me fez menina por muito mais tempo.

Passei pelo constrangimento de ouvir daquela tia, em plena festa de família, que queria ver se eu já tinha “laranjinhas”. Engraçado que nunca ouvi alguém pedir para ver o “passarinho” do meu irmão ou dos meus primos. Eles não tiveram que esconder de todo mundo que a puberdade estava florescendo. Nem tiveram que passar pela cena do “primeiro sutiã”, que ficou marcada na mente de quem via a famosa propaganda dos anos 80 em que a menina se sentia diminuída até conseguir um.

A gente cresce, começa a comparar os próprios seios com os das outras. Aprende que os homens só gostam de quem tem seios fartos e durinhos. Nas propagandas de cerveja, nas novelas e por toda a parte, nos fazem acreditar que os seios são a arma de sedução mais poderosa das mulheres, senão a única.

E eu continuei me achando menos mulher por isso. Quando vi amigas colocando silicone para se sentirem mais bonitas, em um momento tive inveja, em outro tive pena. Porque descobri que a cirurgia nem sempre resolvia uma questão que estava lá dentro: elas não sabiam que eram bonitas com ou sem o decote preenchido.

Com o tempo eu aprendi que o tamanho dos seios só faz diferença mesmo na hora de comprar um sutiã ou um vestido. Que eles devem ser livres – do preconceito, do machismo, da vergonha, do medo. Mas colocaram tanto grilo na nossa cabeça sobre eles que muitas de nós crescemos sem coragem até de tocá-los. E, assim, o câncer de mama, que poderia ser evitado às vezes pelo simples prazer de uma mulher agarrar e massagear os próprios seios, chega sorrateiro e silencioso.

Sentir orgulho do próprio seio, do tamanho e formato que for, pode ser um ótimo caminho para evitar a doença. Mas certamente é o melhor jeito de mostrar às mulheres que o corpo feminino não é um objeto e sim uma obra de arte.