Crédito: Wikimedia Commons/ autor desconhecido

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9 anos. No caminho para a escola, de uniforme, um desconhecido gritou “gostosa”.

12 anos. Um amigo da família me beijou. Foi meu primeiro beijo. Ele deveria ter uns 18/19. Eu corri e lavei a boca muitas vezes no banheiro.

13/14 anos. Meu primeiro trabalho em um pequeno comércio no centro da cidade. Trabalhava com o dono. Ele tinha uns 40/50 anos, 5 filhos, casado. Na hora de sair ele me acompanhava até a porta. Um dia, eu disse que não era necessário, ele respondeu que me acompanhava para ficar olhando minha bunda.

14 anos. Comecei a namorar. Meses depois tive minha primeira relação sexual. Ele tinha 30 anos.

Tive e tenho uma boa vida, infância pobre, mas nem perto de miserável. Família presente e amorosa. Minha mãe é uma guerreira, minha irmã é luz na minha vida.

Talvez algumas pessoas achem que esse quadro seguro e familiar não combina com os relatos de assédio acima, mas acredito que mais mulheres irão se identificar do que estranhar.

Não fomos meninas abandonas, negligenciadas, com famílias disfuncionais. Fomos meninas comuns, com vidas comuns, com boas famílias, vivendo em uma sociedade machista, patriarcal, que nos tira a humanidade desde a mais tenra idade.

Nascemos numa sociedade que está cheia até a tampa com a cultura de estupro, então sexualiza meninas, para colocar nelas a responsabilidade pelos assédios e estupros que sofrerem.

Na cidade em que morava em 1995, assédio verbal na rua era só conhecido por cantada. Cantada é bom, né? É pra ficar lisonjeada. Acredito que nunca cheguei em casa contando que um homem gritou alguma barbaridade para mim, parou o carro, fez convites ou tentou até me tocar.

De alguma forma, eu já sabia que esse comportamento era normatizado. Um homem perder o controle, te beijar ou te olhar com cunho sexual era só uma expressão do seu instinto e eu deveria aprender como me portar pra não permitir que isso ocorresse.

Só contei do “beijo roubado” para minha irmã muitos anos depois. Cresci numa família cristã, então, além da carga social normal, eu também acreditava que tinha pecado.

No trabalho citado fiquei ainda por mais um tempo, o dono pegou mais fama de nojento, minha família cuidava para me proteger. Mas aprendi que era minha responsabilidade me defender, ele não seria o único, nem o último.

Minha primeira relação sexual não foi ruim, foi consentida e mantive um relacionamento prazeroso com esse homem por mais de um ano. Mas hoje é impossível para mim deixar de pensar em que tipo de homem adulto se relaciona com um menina entrando na adolescência. Tenho hoje a idade dele e acredito ser quase impossível me relacionar um rapaz de 18 anos, improvável construir interesses comuns compatíveis com um relacionamento amoroso/sexual com alguém tão jovem. Imagina com um menino de 14 anos?!

Só que nos dizem que nós amadurecemos mais rápido, que somos naturalmente precoces. No interior, ainda é extremamente comum homens namorarem/casarem com mulheres décadas mais jovens, na minha família tenho vários exemplos. E, veja bem, não estou falando de diferença de idade entre dois adultos, o que problematizo na minha vida e na nossa sociedade é o relacionamento de crianças/adolescentes com adultos.

Hoje eu deito aqui e exponho coisas que nunca antes pontuei tão claramente, a hashtag #primeiroassédio me fez procurar uma violência na memória, mas no meio achei outras, diferentes, com outros contextos, mas tão parecidas em sua essência. Então por mais que doa, que me exponha, precisei falar, precisamos falar, problematizar, gritar todas as vezes que seja necessário, calar nunca nos manteve em segurança.