Por Thais Cimino

IMAGEM: John Bauer

IMAGEM: John Bauer

A ssim que minha filha, Vida, nasceu, passei por momentos intensos e dolorosos. Tive inúmeras dificuldades para amamentar. Quando a Vida completou 1 mês e meio, tive um abcesso mamário, passei por uma cirurgia para drenar a inflamação e a cicatrização, que se dá de dentro para fora. Fiquei com um corte aberto que demorou cerca de 1 mês para fechar.

Tive que desmamar a minha filha abruptamente. Foi extremamente desgastante pois, além do sofrimento interior, me sentia mal em dar mamadeira em público para minha filha, como se todos estivessem me olhando e julgando. Me sentia uma criminosa, porque eu mesma havia planejado amamentar exclusivamente por tempo indefinido. Além disso, eu estava num país estranho, a França, sem falar o idioma, o que colaborou para me sentir muito sozinha e desamparada.

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Passado mais de um ano, me peguei pensando sobre como cada vez que eu contava a minha história, um pouco mais eu entendia o que me havia passado.

Me escutando falar, eu ia pouco a pouco curando as minhas feridas e sanando as minhas dores.

O PROJETO

A partir da minha experiência pessoal entendi a importância de haver uma rede de acolhimento para as mulheres, em que elas pudessem falar sobre as dores e desafios durante a gestação, parto e o pós-parto. Um espaço para serem ouvidas sem serem julgadas. Mães são criticadas sem piedade, e acabam se isolando em silêncio com suas dores. Foi então que, em 5 de maio deste ano, criei o blog Temos que falar sobre isso.

O projeto começou com a proposta de ser uma plataforma de relatos anônimos – chamada de “Desabafos Anônimos” – de mães que passaram por dificuldades durante o período gravídico-puerperal.

Para abordar temas como a depressão pós-parto, sofrimentos e transtornos ligados à saúde mental na maternidade, problemas com a amamentação, dificuldades na gravidez, perda gestacional e neonatal, partos traumáticos, violência obstétrica, gravidezes de alto risco e prematuridade extrema, entre outros.

Mulheres com dificuldades em contar as suas histórias, silenciadas pela vergonha, insegurança, medo, dúvidas e cansadas de serem julgadas por seus sentimentos não sabem a quem recorrer para encontrar apoio e ajuda. Ali, mães desamparadas poderiam encontrar um refúgio.

A página hoje é um espaço de amparo, apoio e livre de julgamento, onde damos voz a muitas mulheres. Já recebemos cerca de 150 relatos, inclusive de um pai. Também fornecemos ao público informação especializada, com matérias, artigos científicos e respostas de colaboradores ligados às áreas médica, psicológica e jurídica, por exemplo. Quando possível indicamos algum local perto das mães que nos procuram, onde possam encontrar apoio e suporte presencial.

Queremos promover o emponderamento da mulher através de mudanças na difícil realidade com que se deparam durante a gravidez, parto e pós-parto.

O processo da maternidade é um salto no desconhecido.

É preciso muito apoio e espaço para vivê-la plenamente. Há momentos de ambivalência que podem ser muito confusos. É uma montanha-russa, precisa de muita entrega, te faz perder o controle e inclui tantas coisas que ninguém fala pra gente. Ensina que não existem fórmulas mágicas, roteiros prontos ou verdades absolutas. É um caminho único para cada mãe e seu filhotinho…

Percebemos que existe um tabu em torno dos transtornos psicológicos, sentimentos de tristeza, impotência, ambivalência, culpa, medo, solidão, ansiedade, depressão, desilusão, luto, entre outros, que também são parte da maternidade, porém não são permitidos às mães de sentir ou manifestar.

Cobra-se delas que estejam felizes e contentes, em tempo integral, que não se sintam frágeis ou admitam que enfrentam dificuldades, pois isso é taxado como fracasso, criando uma culpa sem fim que muitas vezes é reforçada pela mídia, pela família, pelas instituições e pela sociedade em geral.

Acreditamos que o primeiro passo para curar nossas dores é falar sobre isso. E falando sobre isso damos a oportunidade de outras pessoas escutarem e se identificarem com o nosso caso, com a nossa história e pensarem sobre isso, e também falarem sobre isso. Formando, assim, uma rede de suporte.

O “Temos que falar sobre isso” está superando todas as expectativas, deixou de ser um projeto pessoal para ser uma construção coletiva! As mulheres se respeitam muito, e estão acolhendo umas às outras lindamente. Já está se formando uma rede de apoio feita por elas e para elas, e isso é uma coisa maravilhosa de se ver, o carinho, a empatia e o acolhimento que encontramos são a prova de que estamos no caminho certo.

Contamos com mais de 20 profissionais voluntárias. Em quase 5 meses no ar, já alcançamos 320 mil visualizações, isso pra nós só demonstra que estamos falando de temas que realmente precisam da nossa atenção. A página no Facebook conta com quase de 13 mil seguidores. Além disso temos algumas parcerias muito bacanas e muito ainda está por vir, nós estamos recém começando e a estrada é longa.