N ão tome este texto como uma denúncia, ele é um exorcismo.

 

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OBRA: Rosana Paulino | FOTO: Nena Cintra

Foi no primeiro semestre de 2013. Foi naquele dia que me questionaram sobre minha posição pessoal. Foi numa seleção para professores de uma universidade pública federal. Foi num núcleo de estudos sobre mulheres e feminismos, durante uma greve.

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Acabei sabendo da oportunidade pelas redes de contato. Minha orientadora de doutorado estimulou meu engajamento: era a minha cara. Tema: gênero e relações étnico-raciais. Consultei amigos, professores renomados. Um deles me alertou que aquele núcleo tinha uma visão muito restrita sobre o que é ser mulher.

Retorqui: então é para esse espaço que posso produzir algo relevante.

Inscrevi-me. Ao consultar a composição da banca examinadora, mais tarde, vi nomes conhecidos, e o de uma mulher que, apesar de ser professora na minha universidade de formação e historicamente engajada nas lutas pelas ações afirmativas para a população negra (aliás, figura central em sua formulação na realidade brasileira), eu conhecia apenas de leitura, não pessoalmente. Fiquei entusiasmada: ela era uma referência teórica importante para o meu pensamento feminista e negro!

Desloquei-me de Brasília para enfrentar a semana desgastante de provas.

Segunda-feira. Éramos, enfim, três concorrentes: uma doutora europeia; uma professora brasileira, produtora de saberes e práticas transformadores no feminismo negro universitário; e eu. “O cargo é dela”, conformei-me, vendo aquela professora que eu admiro como pessoa e pensadora. “Ela deve lecionar aqui”. Eu e a colega estrangeira iríamos apenas fazer a prova escrita, para não perder a viagem, e esperar o resultado.

Terça-feira, resultado da prova escrita: eu e a doutora fomos aprovadas, a professora, desclassificada. Choque generalizado. Não entendi nada. Ouvi uma conversa das integrantes da banca com essa colega, que ela deveria ter sido mais acadêmica, e menos auto-biográfica, falado menos de suas experiências pessoais como mulher e feminista negra.

Papeei um tanto com ela, agora a bola era minha. Aconselhou-me e finalizou a conversa me dizendo:

“Veremos se elas aqui preferem a negra trans brasileira ou a branca estrangeira”.

Na saída do recinto onde os resultados foram divulgados, escuto aquela professora de “minha universidade de formação e historicamente engajada nas lutas pelas ações afirmativas para a população negra” poucos passos à minha frente, dizer às outras integrantes da banca que “seria ótimo se pudéssemos escolher as candidatas pelo perfil que queremos”. Ela notou minha presença atrás e, tergiversando, disse-me para desconsiderar o que eu ouvira.

Quarta-feira, prova didática: Eu e minha concorrente fomos surpreendidas pela exigência da banca para que entregássemos, naquele momento, todas as cópias de nossos documentos com autenticação em cartório, além dos planos de aula impressos. Explicamos que não sabíamos de tais exigências. “Estava no Edital, vocês não leram”? – foi uma pergunta que soou ríspida. Não vimos essa orientação na convocatória, e não estava mesmo.

Rogamos por tempo para organizar papéis, entregando originais no lugar de cópias autenticadas, e oportunidade para imprimir os planos. Elas concordaram com nosso pedido, porém alegando que isso “poderia inviabilizar o concurso”..

Planos entregues, apresentamos nossas aulas, abertas para as alunas do núcleo.

Quinta-feira: arguição de Memorial (um tipo de sabatina acadêmica), gravada, pública, com presença do corpo discente: minha vez de ser entrevistada, pela banca, acerca da coerência entre minha trajetória pessoal, acadêmica e profissional, e a pasta de gênero e relações étnico-raciais.

Uma das professoras me fala, então, sobre minha posição pessoal. Sustenta que eu deveria ter me exposto mais no memorial, falando mais de mim na escrita, sobre o meu processo de me tornar mulher, “o qual não ocorre do dia para a noite”, porque, em um concurso para um núcleo feminista, colocar-se como pessoa é imprescindível, diferentemente, por exemplo, do que seria em uma seleção para “um cargo em Psicologia”.

Chorei. As tensões pulsando desde o primeiro dia afloraram. “Sim, não me expus mesmo”, redargui, “eu deveria me abrir mais, essa é uma banca formada por professoras universitárias, por colegas, não é um tribunal da inquisição, eu não tenho porque temê-las”.

Eis que, em sua vez de me inquirir, “aquela professora de minha universidade de formação e historicamente engajada nas lutas pelas ações afirmativas para a população negra” afirma que eu não deveria ter sido gestora do Sistema de Cotas para Negros. Percebo um inesperado rancor em suas palavras. (Em junho de 2003, a Universidade de Brasília (UnB) aprovou o Plano de Metas para a Integração Social, Étnica e Racial, que estipulava a criação do Sistema de Cotas para Negros em seu vestibular. E, no ano seguinte, fui assessora de diversidade e apoio aos cotistas e coordenadora do Centro de Convivência Negra da universidade.)

Eu lhe respondo que concordo, ela deveria ter sido a gestora, outras pessoas seriam gestoras muito melhores que eu, possivelmente, mas eu não era a reitora, e a decisão foi a que se deu. Não fui eu quem me dei o cargo.

Ela me acusa ferozmente, diz que eu só me prejudiquei permanecendo no cargo.

Eu concordo, digo que a experiência me trouxe muitas preocupações e inimigos, mas também muito aprendizado e frutos.

As demais integrantes da banca ficam visivelmente inquietas com a violência da minha entrevistadora. A presidenta interfere, mas a professora reage, lembrando que aquilo era uma arguição de Memorial, então ela tinha o direito de me questionar sobre qualquer detalhe da minha vida profissional.

Eu me impressionei com tanto ódio, vindo de uma pessoa que eu nem conhecia pessoalmente, e que, desde então, deixava de ser uma referência intelectual relevante para mim. Ante aos olhares estarrecidos da banca, da candidata e da plateia de alunas, ela afirmou que concluiria, e perguntou, soberba:

“Mas o que é que você sabe sobre mulheres negras trans”?

Olho para aquela mulher branca, de origem estrangeira, casada, com filhos, de classe média alta, que centenas de livros e artigos científicos escreveu sobre a cultura das pessoas negras brasileiras, e respondo:

— Como mulher negra trans, creio que eu tenha muito a falar sobre as mulheres negras e trans brasileiras que vivem na mais profunda exclusão, sem direito até mesmo a falar de si mesmas, sempre sendo obrigadas a ter algum interlocutor, que se crê melhor conhecedor de sua realidade do que elas mesmas.

Falei muito mais, até ser dispensada. Não esperava mais nada daquele concurso. Pensei em denunciar o tratamento que me foi dado junto à Reitoria, achei melhor esperar o resultado final para compreender o posicionamento da banca.

Sexta-feira, suspense do resultado final: ambas fomos desclassificadas e a seleção anulada. A banca foi esperta, se apenas eu tivesse tido notas negativas haveria argumentos suficientes para que eu procurasse a Administração ou a Justiça.

No final, na ressaca disso tudo, as integrantes da banca – exceto aquela que me violentou simbolicamente e verbalmente – explicaram-nos que era o primeiro concurso no Brasil para que uma professora se ocupasse de uma pasta em gênero e relações étnico-raciais. Eu, como a minha concorrente (hoje professora em outra universidade pública brasileira), não tínhamos, naquele momento, “produção bibliográfica suficiente”.

Disseram-me que, se a pasta fosse sobre gênero e sexualidade, quem sabe eu passaria. Por que eu não concorria para um cargo em Psicologia, indagaram-me. Respondi que já concorrera a algumas dezenas de concursos na área, e inclusive, em um dos que fui reprovada, constava na bibliografia exigida um livro que eu mesma ajudei a escrever!

Meses depois, convocaram nova seleção para o mesmo cargo. As alunas, sempre atenciosas, encontraram-me num evento internacional sobre gênero e feminismo, e me convidaram para concorrer novamente, não aceitei. Não me sentia aberta para tanto, meu orgulho estava ferido. Estava ciente que o problema não era eu, tampouco o núcleo de estudos e suas integrantes, mas, isso sim, aquela professora em particular, que viu em mim alguém ou algo que ela odiava. Um clássico exemplo de transferência, como se fala em Psicanálise.

Fui informada, posteriormente, que a vaga havia sido devidamente preenchida por um professor. Homem.

Lamento muito tudo isso, não creio ser a única a pensar dessa maneira. Mas não é suficiente. Há muito o que se dizer e fazer, neste país, com relação a seleções docentes para universidades públicas. Sabemos qual é o perfil de professor que elas almejam, apesar dos discursos em contrário.

Uma amiga e confidente, professora internacionalmente reconhecida, ao relembrar comigo essa história de terror, afirmou, com conhecimento de causa:

“O próprio sistema de concurso público para as universidades brasileiras precisa ser questionado. Eu não consigo entender porque a universidade faz seleção de professores com pessoas do próprio departamento. Embora tenhamos muitas críticas à noção de mérito, se é ele que (se supõe) deva prevalecer nos concursos, não se pode concordar com esse tipo de estrutura de organização das seleções para professores universitários. As histórias se repetem: abuso das bancas, vaga com don@”…

P.S. 1: Enfim, ofereço este artigo às pessoas trans negras (incluo, nessa referência, as travestis e pessoas não binárias). Que ele, apesar de dissertar sobre a nossa horrenda realidade, possa acalmar seus corações e lhes empoderar nas horas mais tenebrosas.

P.S. 2: Por que só agora consegui escrever sobre esta experiência traumática? Mês passado eu soube, por meio da divulgação de uma agência de notícias feministas, que “aquela professora” comporia mesa em um evento de grande porte sobre violência contra a mulher. Que ironia.