FOTO: Carolina Oms

“Q uarta-feira, 1 de julho, às 19 horas. O pós-pornô chega às Sociais, passeia pelos corredores da faculdade e vai sexualizando tudo ao seu redor. Uma proposta para ampliar o imaginário pornográfico e experimentar outras formas sexualizadas de habitar o espaço universitário”, dizia o folheto de divulgação que circulou pela Universidade de Buenos Aires, na Argentina.

Somente cerca de 30 pessoas viram a performance e o debate que ocorreu em seguida. Mas as notícias de mulheres, nudez, sexo e sadomasoquismo ocupando uma das mais prestigiosas universidades do país correram as redes sociais e a imprensa como um raio. “Entendemos o pós-pornô como uma plataforma artistíca e política que permite experimentar, viabilizar e tornar desejáveis diversidades de corpos e práticas sexuais não convencionais”, disse pouco depois Laura Milano, investigadora e jornalista argentina que participou da ação.

O pós-pornô surgiu em meados dos anos 80, quando a ex-atriz pornô Annie Sprinkle se insurgiu contra as condições de trabalho e o machismo da indústria. Considerada a mãe do movimento, Annie passou a dirigir e criar seus próprios filmes e performances.

Em uma delas, com lingerie preta e sapatos de salto alto, ela abre as pernas, insere um espéculo na vagina e convida homens e mulheres a olhar o seu colo do útero. “A vagina ou o colo de útero não têm dentes”, diz Annie, numa provocação aos machistas e/ou mulheres que têm vergonha de seu corpo.

Cerca de vinte anos depois, coletivos feministas ao redor do mundo retomam a ideia. São grupos que, ao não se verem representados na pornografia comercial, propõem novas práticas — ao invés de rechaçar a pornografia como um todo. Definir o que seriam estas práticas, no entanto, já é tarefa mais complicada, já que existem inúmeros coletivos independentes criando cada um suas narrativas em torno do tema. Mas o primeiro passo é afirmar o que o pós-pornô não quer ser.

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Aproveitando as novas tecnologias cada vez mais acessíveis, esses grupos feministas criam e consomem suas produções pós-pornográficas. Mas, ao contrário da indústria, suas produções são coletivas, autogestionadas e sem fins comerciais. As criações que surgem desse trabalho podem ser várias: filmes, fotos, intervenções, debates…

A pluralidade das formas de ação do pós-pornô evidencia que não estamos diante de um movimento unificado ou de um gênero com códigos estabelecidos. “Grande parte do discurso pornô que se produz segue reproduzindo a heteronormatividade e colabora para alimentar um imaginário limitado, regrado e que hierarquiza as experiências sexuais em torno das pessoas”, afirma Laura.

Para Eliane Robert Morais, professora da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em literatura erótica, a pornografia comercial tenta se impor de maneira única sobre desejos que são singulares, produzindo uma sexualidade conformada às exigências da ordem social; um erotismo reduzido às demandas da utilidade.  A tralha midiática oferece um repertório fechado e pronto de imagens, que banaliza e reduz o poder subversivo do sexo.”

Veja a entrevista com Eliane na íntegra, aqui.

Entendeu o que é o pós-pornô?  Difícil, já que ele não tem uma definição única. Mas a principal dificuldade para defini-lo se deve ao fato de que definir é também enquadrar, delimitar. E o que estas  mulheres buscam é exatamente o oposto. Libertar, ampliar e diversificar o sexo, o desejo e as suas expressões culturais.