Na Semana da Consciência Negra, convidamos Tatiane Ribeiro, jornalista, para sentar no nosso divã.

P assei muito tempo pensando sobre o por que das mulheres negras se sentirem tão sozinhas. Fiquei pensando sobre as relações pessoais que temos, sobre a infância, sobre as vivências. É difícil entender porque somos e nos sentimos tão sozinhas.

Quando era criança, minhas amigas todas eram brancas. Eu estudava em um colégio particular, onde era bolsista (eu e o único outro negro da minha sala). Me sentia diferente e não sabia muito bem por quê. Um dia, relacionei a diferença com o cabelo.

Todas as meninas ostentavam belos rabos de cavalo ou tiaras com seus cabelos lisos e sedosos. Eu sempre ia pra escola de trança. Em algum momento, passei a ser reconhecida por elas, as tranças. Mas as crianças não querem ser diferentes. Elas querem ser iguais. Odiava minhas tranças, odiava não ir de rabo de cavalo e não entendia porque não tinha cabelos sedosos como os das minhas coleguinhas.

Crescendo um pouco, na pré-adolescência, a coisa ficou mais clara: com o fim do ano, vinha a maldita mania de fazer o “amigo da onça”. Eu não ficava empolgada querendo saber o que iriam me dar. Eu já sabia: todo ano ganhava um pacote de Bombril. Pra fazer implante de cabelo.

Quando passava Chiquititas ou quando queria dançar Spice Girls com as amiguinhas, eu nunca podia escolher quem queria ser. Era sempre a Mel B, a Pata, a negra. Power Rangers nem se fala. Meu sonho era ser a Ranger Rosa. Sempre era a Amarela. Foi quando comecei a entender que a diferença não era só no cabelo. A diferença era muito mais profunda.

Como tive muito mais contato com a parte branca da minha família, também tinha poucas referências de beleza próximas da minha. Eu era a prima legal, enquanto minha prima loira dos olhos claros era a prima gata. Minha melhor amiga também era loira, imagina só minha cabeça. Passei a me entender mais com os meninos. E aí passaram a me masculinizar. Afinal, como mulher eu não ia muito bem…

Talvez o maior choque mesmo tenha sido na universidade: estudei jornalismo na USP e ninguém era igual a mim. Eu era muito diferente e isso ficava claro em tudo.

Nós, mulheres negras, temos vivências muito diferentes. Mas a verdade é que a solidão nos assola o tempo todo exatamente porque não importa onde, sempre somos vistas como diferentes. Não somos iguais. Até quando consideradas bonitas, somos “negras bonitas”. Acho que ninguém ouve por aí que fulana é uma “branca linda”.

Somos o tempo todo diferentes. Nem vou entrar aqui no tema romântico, porque esse tema dá, sozinho, um novo Divã. E é por isso também que mesmo o feminismo tem muita dificuldade de nos incluir. As mulheres negras querem ser iguais. Querem ser mulheres como todas as outras. Mas, enquanto formos dadas como diferentes, apenas nos incluir como parte do feminismo que é feito por não-negras e atende a demanda de não-negras, não nos basta.

Precisamos cada vez mais enegrecer o feminismo, colocar as mulheres negras como referência. Enquanto lembrarmos apenas de Simone de Bouvoir e nunca de Dandara de Palmares, continuaremos sós. E só entre nós, mulheres negras, nos sentiremos parte. É preciso colocar as mulheres negras na ordem do dia. Para que nenhuma outra menininha odeie mais suas tranças na escola. E nem pensem que não há ninguém como elas. Somos muitas, precisamos ser vistas!