IMAGEM: Robert Huffstutter

IMAGEM: Robert Huffstutter

F ica na boca do povo (boca suja, viu!) que travesti é tudo vagabunda e não gosta de trabalhar. Mas escuta eu, deusa, que sei das coisas: o que falta é OPORTUNIDADE.

Até parece que nós, travestis e trans, não temos direito a um trabalho digno como todo filho de Deus. Há até empresas que contratam travestis e são empresas sérias, mas é uma minoria. Mesmo nelas vocês precisa de uma boa recomendação, assim dum pica das galáxias, pra conseguir um emprego. Eu gosto de trabalhar, tenho disposição pra isso. Não atraso, não falto e uma vez já fui promovida três vezes num ano só. Mas quem disse que isso me ajuda a ter trabalho?

Prefiro trabalhar a ficar na beira da estrada e tenho certeza que muita mulher trans tá comigo! Não que a prostituição não seja um trabalho digno, eu mesma me sustentei a vida inteira dessa forma. Mas ela tem que ser uma opção e não uma obrigação! Além do mais, é uma tristeza a situação das ruas hoje, deusa. É ali que muitas se entregam à droga, se matam até. Não é qualquer um que aguenta o tranco, não. Nós travestis somos muito fortes! Porém, por mais que não gostemos de nos prostituir, é quase sempre a única opção, infelizmente. Porque o preconceito corrói o coração dos empregadores, essa é a verdade.

Leia mais: As dores das mães de travestis

Veja o meu caso: quando começou a cair a mídia em cima de mim por conta do meu sucesso no Youtube, bati de porta em porta de agência de trabalho. Eu não queria mais me prostituir no Brasil, eu sentia medo e me sentia suja. Era humilhante e, com a notoriedade do Youtube, seria ainda mais. A maioria das vezes em que entregava currículo nas agências, porém, percebia o pouco caso das mulheres que me recebiam. Megeras! Às vezes, olhando pela porta eu via que já tinham jogado, sem nem ler, o meu currículo no lixo.

Não fui chamada pra oportunidade nenhuma. Nem entrevista. O dinheiro acabou, eu já tava devendo aluguel e perdendo a presença VIP, não tinha o que comer na geladeira. Encarar a estrada de novo depois de tantos anos sem me prostituir não foi fácil. Tava fazendo o truque da galinha morta, dando umas voltinhas pra conseguir o que comer no outro dia, quando conheci uma menina que me deu um fio de esperança. Me disse que tinha uma empresa na Dutra que contratava travestis.

Fui muitas vezes de Guarulhos até a Caixa do Caça Prego! Esperei ela feito palhaça e ela nem aparecia! Só pode ser o diabo pra colocar alguém assim no espírito da mentira no meu caminho! Sai Belzebu!

Já estava num desespero tão grande que, na hora de atravessar a passarela de volta, parei e pensei: “Eu devia me jogar”. Sabe, eu amo a vida, nunca tinha pensado em me matar. Mas ali eu tava mesmo, seriamente, querendo tirar a minha vida. Não gosto nem de pensar naquele dia…

Fui despejada de casa, dormi dois dias na rua com minha cachorra num terreno abandonado. A caridade dos meus amigos, que fizeram uma vaquinha e me botaram pra morar num cortiço, me salvou. E ali voltei a me prostituir seriamente para pagar o aluguel. Tudo que eu queria era arregaçar as mangas e trabalhar. Ainda teve jornalista que fez matéria dizendo que eu tava na pior, só pra me colocar mais pra baixo!

Então, uma dessas agências me chamou! Ufa! Fiz entrevista no centro de São Paulo. Era para trabalhar num hotel como camareira. Credo! Esse lugar me deixou muito traumatizada. Tive que suportar muita coisa! E, pasme, mona, eu fui até agredida dentro do ambiente de trabalho!

Conheci pessoas ignorantes que tinham rixa com travesti. Adoravam tirar foto do meu lado porque eu era a tal da Luisa Marilac (coisa de divônica, né, amor?), mas na hora do vâmo vê era puro preconceito e maus tratos! Era um ambiente nada saudável, as pessoas eram grossas e mal educadas.

Tenho certeza que as dificuldades que passei muitas outras mulheres trans passam. Não é que minha história é diferente. Recentemente, eu entendi melhor como funciona o movimento LGBT, que não é uma coisa governamental cheia de dinheiro, mas sou e você que lutamos aqui do nosso jeito pra ter direitos.

Mas não é só a gente que devia ir atrás dos corre não! Não é só internet e panfletinho na rua que salva vidas!

Isso devia ser coisa do governo! Nós, transexuais, não temos ajuda de ninguém. Deveriam existir políticas direcionadas só para nós, pra ajudar a arrumar emprego, tratar psicologicamente, pagar advogado, ensinar a entrar na política. Não temos ninguém que nos represente! Sem preconceito, mas mesmo os gays não podem nos representar, sabe por quê? Porque eles nunca vão passar o tamanho do preconceito que uma travesti passa! O homossexual, se quiser, passa despercebido: ninguém humilha, ninguém maltrata. Agora eu, deusa, como vou esconder minha voz e minha cara numa entrevista de emprego?

Olha, rainha, somos uma minoria que, no fim das contas, tem sempre que se virar nos 30. Somos vítimas mas, nesse país doido em que vivemos, a vítima sempre é considerada culpada.

Mas sou uma otimista teimosa. Acredito que querendo e lutando a gente dá a volta por cima. Estava andando na rua outro dia e vi um cartaz “Caritas: ensinam-se cursos”. Entrei, na maior e perguntei: “Ensina curso de quê?”. E me disseram que ensinavam a costurar. Topei e estou lacrando – se visse as colchas e os vestidos que já fiz pra mim… Qualquer um que quiser ir na Caritas e aprender que nem eu, pode ir. Não tem preconceito de gênero lá não. Enfim, tâmo aí na luta de novo. Já comecei a jogar currículo no mercado, com a graça de Deus estarei trabalhando e arrasando em purpurina e glória no ano que vem!