No dia 30 de outubro, mulheres fecharam a Av. Paulista em protesto contra o PL 5069. Foto de Julia Rodrigues

No dia 30 de outubro, mulheres fecharam a Av. Paulista em protesto contra o PL 5069. FOTO: Julia Rodrigues

Hoje nós, mulheres, vamos ocupar as ruas de São Paulo para gritar juntas contra o Projeto de Lei 5069 e contra Eduardo Cunha. Quem simplesmente aparecer por lá talvez imagine que a organização da manifestação seja espontânea, que alguém lance evento no Face, a bateria se reúna ali na hora e alguém pinte na faixa principal a frase que lhe vier à cabeça. Nada poderia estar mais distante da realidade.

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Eu pude entender isso quando resolvi participar da organização do ato de hoje. Começou na quarta-feira, 4 de novembro, quando cerca de 60 mulheres reuniram-se para organizar o ato – e a primeira vez que participei de um encontro como esse. A segunda viria logo em seguida, na noite do dia 9. Estas reuniões me fizeram entender como as manifestações são não apenas muito organizadas, mas cuidadosamente pensadas para funcionar e passar a mensagem que queremos.

A primeira reunião começou com uma avaliação do ato do dia 30. Alguns incidentes foram relatados: um homem que teria mostrado o pinto para as manifestantes (como faz pra acabar com essa praga?), outros que teriam agido com brutalidade com algumas das mulheres. O grupo é predominantemente jovem, mas as mais velhas apontam que o trajeto foi longo, o que pode ser um fator de exclusão para pessoas com necessidades especiais, mães com bebês e idosos. Diante dessa fala, muitas balançam as mãos, em um código aparentemente familiar a todas e que rapidamente compreendo: é uma maneira silenciosa de validar a fala das irmãs, como elas costumeiramente se chamam.

A ata segue, desafiada pelo tempo curto. A necessidade de pragmatismo – uma série de decisões práticas precisa ser tomada – contrasta com o desejo de diálogo e de aprofundamentos para os quais não há tempo e, por isso, paira naquela sala no centro de São Paulo uma leve tensão. Algumas ali representam algum coletivo ou partido, mas há também mulheres que estão ali de maneira autônoma. Percebo que sou, provavelmente, a pessoa com a mais curta história de luta política por ali, embora as mais novas aparentem 18 ou 19 anos.

A crítica ao relato da grande imprensa sobre o ato do dia 30 também surge. A história que elas (nós) protagonizaram nas ruas foi parar nas notícias sem que Cunha e o PL do aborto ocupassem as letras garrafais das machetes.

Por isso, para o próximo ato, elas querem garantir que seja impossível para um jornalista bem intencionado não noticiar a manifestação como um ato de repúdio ao 5069 e ao presidente da câmara.

Com esse objetivo, uma votação folgada decide que a faixa que abrirá o ato – onde no dia 30 lia-se “abaixo a cultura do estupro” – trará o 5069 e Eduardo Cunha em suas letras gigantes.

Rapidamente compreendo que quase tudo que eu vi no dia 30 – e certamente em qualquer uma das muitas manifestações a que já fui – foi pensado, programado, calculado. As músicas puxadas pela frente do ato são elaboradas e escolhidas por todas, para garantir que a mensagem será repetida à exaustão. As mulheres que segurarão a faixa principal também não são aleatórias, embora aconteça de as decisões do grupo saírem do controle diante da multidão. Para o próximo ato, acatamos em consenso a sugestão de que a faixa esteja nas mãos de mulheres negras, sempre as maiores vítimas da proibição do aborto.

A segunda reunião foi ainda mais prática, e talvez por isso mesmo mais tensa. Um chapéu arrecadou duzentos e poucos reais, destinados à mulher que comprou os materiais do ato anterior. Há diversas funções que precisam ser definidas para garantir o bom andamento e a segurança do ato, das baterias às corre ato (mulheres que fazem o leva e traz de notícias entre frente, meio e fundo da passeata), passando pelos grupos que farão performance e por aquelas que literalmente param o trânsito para a passagem da manifestação. Todos esses papéis são atribuídos coletivamente, e o grupo determina que desta vez apenas mulheres devem trabalhar na organização. Também fica decidido que não haverá carros de som ou microfones, como não houve no dia 30. Caso alguém apareça com algum desses materiais, elas saberão que não faz parte da organização do ato e pedirão para não utilizar o material. O objetivo é garantir que ninguém tenha mais destaque do que ninguém. 

O ato – elas afirmam – é na rua, na horizontalidade do chão.

A reunião terminou perto das 22 horas, e algumas de nós fomos ao boteco da esquina para a merecida cerveja. A conversa de boteco mostra que a militância ocupa um espaço importante na vida de várias dessas mulheres. Desta vez a pauta é Cunha e o PL 5069, mas elas estão por dentro também da Proposta de Emenda Constitucional 99, que dá a algumas associações religiosas poder para questionar o Supremo Tribunal Federal, do andamento do Estatuto da Família, dos bastidores da militância brasileira. Elas estudam, leem os projetos de lei, encontram-se regularmente para falar sobre política. Elas são as flores da Primavera da Mulheres, e nos convidam a fazer melhor e maior do que fizemos em 2013.

Lá, na época das Jornadas de Junho, dizia-se que “o gigante acordou”. Estavam enganados: o gigante acordou agora, e o gigante é uma mulher.

 

E se você quer ser parte deste movimento, compareça ao ato, hoje às 17h em frente ao MASP.