Ilustração: Anabella López

 

Q uando digo que sou feminista desde criancinha, tem quem atire pedras. Como assim, você era feminista com 8 anos? Isso não existe! Bom, essa é a minha realidade. Tive o privilégio de ter pais liberais que, desde cedo, me provocaram um forte senso de justiça. Nos meus diários, eu escrevia que mulheres não eram inferiores aos homens, que podíamos fazer tudo o que os homens podem fazer. Óbvio, não era um feminismo teórico. E ter me assumido feminista com 8 anos não me faz uma feminista melhor ou pior do que ninguém. Mas significa que nunca fui contagiada pelo discurso anti-feminista. Tudo isso que falam das feministas – que somos ogras peludas e frustradas querendo ser homens – nunca me afetou, porque eu decidi ser feminista muito antes de ser exposta às besteiras que criaturas retrógradas dizem sobre o feminismo.

Por não prestar atenção às definições que os inimigos do feminismo dão às feministas, não tive conflitos para me assumir. Meus lábios nunca sussurraram as palavras “sou humanista, não feminista”. Nem “sou a favor de direitos iguais entre homens e mulheres, mas pelo amor de Deus, não sou feminista!”. E muito menos o famigerado “sou feminina, não feminista”, louvados sejam meus lábios!

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Sempre tive desconfiança de gente que demoniza a luta legítima das mulheres. Só algumas décadas mais tarde é que fui descobrir que os insultos que essa turma conservadora dedica às feministas de hoje são os mesmos usados contra as sufragistas, as mulheres que lutaram pelo direito ao voto 160 anos atrás. Ou seja, eles são conservadores mesmo: não mudam o discurso, não trocam o disco. E não são exatamente criativos.

Quando comecei a escrever um blog, quase oito anos atrás, me dei conta de que muitas mulheres não se assumem feministas não tanto pela influência da propaganda anti-feminista, mas porque pensam que pra ser feminista é preciso agir de certa forma, ou ter lido um monte de livros. Ler é incrível e ajuda a não ter que reinventar a roda toda vez que estiver diante de um dilema. Mas não existe um comitê feminista que vai te testar e perguntar o que Simone de Beauvoir ou Judith Butler escreveram sobre a vida sexual dos pandas (me deem um desconto, é que voltei da China). E ninguém vai cassar sua carteirinha se você casar na igreja, pintar as unhas, usar salto alto, ou parar de trabalhar por um tempo pra criar um filho.

Talvez, volta e meia surja alguma feminista que não recebeu o memorando do comitê inexistente e não saiba que feminismo é sobre escolhas, não sobre proibições.

Não se deixe abalar se alguém vier com uma lista de etiqueta feminista e não quiser te aceitar no clubinho. A verdade é que não há clubinho, porque não existe hierarquia. Ninguém manda. Mas há vertentes, e inúmeras vezes essas vertentes discordam entre si. É a vida, todo ativismo tem isso. Eu, pessoalmente, nunca me identifiquei com nenhuma corrente em particular. Pra mim, me assumir feminista já basta. Não preciso rotular meu feminismo em alguma vertente, se tenho pontos de concordância com todas elas.

Agora, as más notícias. Ninguém se torna uma pessoa iluminada por ser feminista. As opressões não desaparecem magicamente depois que você se assume. No máximo você se empodera, se torna mais forte, mais preparada para o combate, mais livre. Mas é um caminho sem volta. Ler uma revista feminina não será mais a mesma coisa. Você também passa a enxergar preconceitos que você nem imaginava que existiam.

Só que vale a pena. E, pra falar a verdade, nem sei se é uma escolha. Num mundo tão cheio de injustiças, ninguém pode se dar ao luxo de não ser feminista.  

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Glossário feminista

Você não precisa estudar o tema para ser feminista, mas se escolher fazê-lo, vamos preparar, para a próxima edição, um glossário com as palavras básicas que você deve conhecer para entender o debate na internet. Mande suas dúvidas nos comentários!