Quem senta no divã de hoje é Fernanda Saez.

Em contemplação – Raja Ravi Varma (1848–1906)

IMAGEM: “Em contemplação”, de Raja Ravi Varma

P or muito tempo, vivi pensando em quais atitudes precisaria ter para agradar as pessoas. Era muito difícil, enxergar as minhas vontades, as pessoas eram mais importantes, o que elas pensavam era mais importante. Sempre que precisava resolver qualquer dificuldade, era nas opiniões alheias que eu procurava solução. As minhas vontades escorriam pelas frestas dos meus dedos, era tanto medo dos meus próprios desejos que, por anos, abandonei todos os meus sonhos.

Casei muito nova, sem muitos planos. Nunca fui adiante para realizar os sonhos que tive, sempre fiquei feliz com as conquistas de amigos e familiares, sabotava qualquer ideia que surgisse em minha cabeça. No fundo, era mais fácil ver o sucesso das outras pessoas e permanecer na zona de conforto.

Nossa vida é a única coisa que podemos mudar, mas dá um trabalho, né?

Com o fim do meu casamento, duas filhas para cuidar, dei de encontro com uma realidade totalmente diferente da que eu estava acostumada. Aquela mulher dependente que projetava sua vida nas pessoas teve que mudar. Minha vida estava cada dia mais embaraçada, precisava ganhar mais, passar mais tempo com minhas filhas, afinal, o que eu ouvia todos os dias era: “você tem que dar conta de tudo sozinha, pois você fez a escolha da separação, arque com as consequências, casa, trabalho, filhas e todas as responsabilidades”.

Ao decidir me separar, eu tinha ido contra duas famílias tradicionais e preconceituosas, a minha e de meu ex-marido. Eles achavam que mulher não pode pedir a separação, que mulheres casadas não podem ter amizade com mulheres separadas. Todos os dias eu acreditava que iria enlouquecer, estava claro – perderei todos à minha volta.

A angústia era minha companheira, os dias eram como um campo de concentração. Não. Não era fácil. Eu sabia que precisava fazer alguma coisa para sair daquela situação, mas o quê? O que fazer, quando estamos no vazio, no nada? Tudo que sabia fazer era pensar “preciso de ajuda”.

Um dia, já cansada de tantas perguntas, resolvi pedir ajuda, mas agora de um profissional, marquei um horário com uma psicóloga e, assim que entrei no consultório, falei:

– Preciso fazer algo da minha vida!

Ela me ouviu serenamente e, com todo seu jeitinho, falou:

— O que você gosta de fazer?

Gente, nunca eu havia me perguntado o que realmente eu gostava de fazer! A pergunta me lançou numa verborragia sem fim. Nesse dia eu percebi como eu estava mais preocupada com os outros do que comigo.

Depois de aproximadamente 40 minutos, explodiu em mim uma luz:

– Já sei o que realmente faz meu coração vibrar: ajudar pessoas. O que eu faço de melhor é ouvir.

– Agora você precisa descobrir como você poderá desenvolver isso – e começou a me explicar o que era coaching.

Finalizamos aquela sessão com um compromisso de que eu iria procurar entender o que realmente era coaching. Fiz inscrição num curso, encostei minha cabeça no encosto da cadeira, e pensei: “Depois de tanta procura, eu não posso dar mais um passo em falso, a vida está aqui e está me chamando”.

No primeiro dia do curso, eu estava fascinada com tantas formas de entrar em contato comigo e como eu poderia ajudar outras pessoas a se conectarem consigo mesmas também. Como era maravilhoso agarrar seus sonhos e objetivos! Me dei conta de como eu realmente era importante. Foi um processo bem dolorido, cheio de lágrimas. Quantas vezes eu me abandonei e coloquei a culpa nos outros?

Então, determinei, jamais iria abandonar minha vida novamente.

Determinação e foco conduziriam meus dias a partir de então, uma transformação gradativa e diária. Hoje, já no final de minha formação em Psicanálise, trabalho ajudando pessoas a acreditarem que vale a pena olhar para si!

Sempre escuto do meu analista:

– Confie em você e respeite o seu tempo de organizar e compreender todas as suas perguntas, as respostas sempre aparecerão, elas estão aí, dentro de você!!!