Por Fabiane Guimarães
Ilustração: NNelumba / Creative Commons

A  primeira coisa que pensou foi que precisava pegar um avião e ir para a praia. O doutor nem tinha terminado de falar. Quando percebeu o silêncio da interrupção, ela viu que tinha dito em voz alta: a praia, sim. Eu tenho que ver. A gente passa tempo demais nesse meio de mundo, é preciso se arrastar para as beiradas de vez em quando. Ver o sol cair no mar. Atolar as canelas na areia – que na verdade nunca é só areia, é caramujo, caco de vidro, tampinha amassada de refrigerante. Uma vez ela tinha até encontrado um dente.

“Adriana, você está bem? Posso ligar para sua mãe”, o médico se preocupou, polidamente. Semblante sério. Meio tristeza, meio cansaço.

O estranho é que ela estava bem. Foi andando até o ponto de ônibus, a cabeça vazia. Devia ser o botão de emergência, reservado para quando o desespero não é imaginário: é real, é palpável, alguma coisa deve ser feita. O botão que anula o drama, endireita a cabeça e faz gesto para o motorista parar. Engrenagem de raciocínio funcionando enquanto o resto do universo encolhia.

No aeroporto, sem bagagem, a roupa do corpo – calça jeans e camiseta – Adriana comprou a passagem, ida e volta. Cavou um rombo no cartão de crédito. Reservou um assento especial, coisa que nunca bancava, e teve um acesso de riso histérico quando disse para a atendente que precisava de mais espaço para as pernas. Só parou de rir quando entrou no banheiro feminino. Aí viu que não estava rindo, não. Estava era chorando.

Copacabana, no verão: amostra do inferno. A claridade branca impedia as pessoas de olharem para frente, curioso ver os outros desfilarem de boné e cabeça baixa. Um bando de gente catando os pés enquanto corria e Adriana, no meio deles, sendo obstáculo e vazio. Estavam curvados demais para notá-la além do desvio, a moça gorda no meio do caminho. Ela, por sua vez, apreciou a própria loucura. Desligou o celular e comprou cerveja. Não tinha levado nem uma toalha, e não alugaria cadeiras, só se enterrou na areia de tampinhas e cacos de vidro, o suor pregando nas coxas.

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Um de seus namorados dizia que odiava suas coxas. Amava todo o resto, explicou, principalmente o rosto, que era tão bonito, mas tu bem que podia fazer um regime, né, Drica? Tuas pernas são muito grossas. Por muito tempo, mesmo depois que ele passou, ela analisou sua espessura no espelho, sentindo aflorar no meio da garganta o ódio crescente pelos quadris largos abrindo-se em leque. Ela não era tão gorda assim, antes. Na adolescência. Era magra. Bonita. Não soube em que ponto começou aquele processo de crescer ao inverso, de baixo para cima, ampulheta assinalando o fim de seu tempo. Mas odiava.

Agora, este tipo de coisa não importava, escolhera parar de se agredir. Tinha se acostumado à fartura e conhecido outros homens que apreciavam suas medidas. Que mergulhavam entre as coxas largas, caçando no meio delas a fenda onde se perdiam a noite inteira. Eles nunca ficavam, mas ela também não pedia. Estava bem. Estava ótima, na verdade, o que era muito irônico. Felicidade devia ser mesmo uma armadilha lançando idiotas ladeira abaixo.

No avião, havia uma família esquartejada em poltronas diferentes. O pai seguia na linha de frente, com a filhinha adormecida ao lado e Adriana, sozinha. A mãe, uma mulherzinha nervosa e atlética, só conseguira encaixe na asa. Peregrinava pelo corredor, discutindo com a comissária. Como é que podiam separá-la assim do marido?

“Não troque”, Adriana sentiu o sussurro chegar no ouvido. Ela lia a revista da empresa aérea, tomou um susto.

“O quê?”

“Minha mulher. Vai vim te pedir para trocar de lugar com ela. Não troque.”

“Mas por quê?”

Ela olhou para o sujeito, teve pena dos olhos injetados, o cabelo começando a ficar grisalho. Sustentava a filha, uns cinco anos, na lateral do braço, lutava para afivelar o cinto, aproveitou o debruçar para pedir o favor. Parecia exausto de ter que se explicar. Adriana podia ouvir a voz da mulher flutuando até eles: é um absurdo, vou processar essa companhia, como não tem outro lugar decente para mim? Quem é seu chefe? Esse avião não sai daqui.

Adriana sabia o que era necessitar de um pouco de paz.

“É que eu preciso de mais espaço para as pernas”, disse, sem se importar muito com o olhar venenoso que a outra lançou, feito o pedido em tom de ordem.

Ele nem esperou que a esposa apoplética cruzasse a segunda metade do avião para agradecer, baixinho, pela cortesia.

“Vai ao Rio por trabalho ou turismo?”, perguntou.

“Vou só passar algumas horas.”

“Horas?”

“Volto ainda hoje.”

O nome dele era Ricardo. Empresário, cinquenta anos. A mulher, lá atrás, era o terceiro casamento. Ele tinha um fraco por senhoras estúpidas, o problema é que só descobria quando era tarde demais. Produzia amor, como essa pequena princesa aqui, mas não era bom em encontrar um que durasse.

“É engraçado, a gente fica parado esperando alguma coisa acontecer na vida da gente. Diz que amanhã ou depois vai ser um grande dia. Quando vê, a vida passou”, ele confessou, tirando os óculos para limpar na barra da camisa.

Falava devagar, como se provasse as palavras na ponta da língua antes de dizer. Vagaroso. Ela sentiu o princípio de algo cândido e suave: ternura.

Tanto tempo olhando para o mar, Adriana entrou. Quando viu, já estava no meio, de roupa e tudo – ninguém estranhou isso também. Ela se preocupou, enquanto afundava com o peso do tecido molhado, se daria para secar até a hora do voo. Concluiu que possivelmente, dado o horário da partida. Só depois é que se lembrou do celular, no bolso de trás da calça. Saiu correndo, respingando água, feito louca (que já estava). Desmontou o aparelho. Bateria e tantos outros circuitos inundados de sal. Sua vida inteira em minúsculas placas de metal e ferro. Deixou para secar na areia. Será que o sol carioca fazia milagres?

Eu acho que já era, opinou o vendedor de cerveja. Ela deu de ombros. Me vê outro latão. Não tinha porque perder a esperança.

Adriana havia se despedido de Ricardo no desafivelar de cintos. Ela estava com pressa, ele não. A imagem que guardou dele foi essa: sentado, as mãos cruzadas no colo, enquanto a esposa alvoraçada já pegava a filha, gritando alguma ordem por cima do ombro. Um homem calmo e confortável. Pensou que seria capaz de deitar naquele peito e descansar por uma tarde inteira, se fosse possível.

“Boa sorte, moça”, ele desejou, sem qualquer motivo, a voz suave de tenor.

Ela reconheceu, aliás, a voz. Foi a primeira coisa que notou, ao virar o pescoço no restaurante lotado. Três meses depois, coisa assim? Estava almoçando com a enfermeira. Sua babá. Era o mesmo restaurante onde iam todos os dias, o garçom já reservava a mesa da ponta, mais fácil de encaixar a cadeira de rodas – usava a cadeira até as próteses chegarem, ou até ser capaz de comprar as próteses.

Todo mundo estava ansioso por agradar Adriana agora, chegava a ser engraçado. Foi só ter as pernas serradas para se tornar visível de corpo inteiro. Os dois tocos bem escondidos pelos shorts jeans – na altura das coxas – abriam portas e janelas. Incomodavam a consciência alheia. O médico tinha insistido que ela precisava de uma rotina, então forçava uma: acordar cedo, tomar café com Eugênia (a enfermeira), descer para observar as crianças brincando no bloco. Subir, tomar um banho, apoiada nas barras de proteção recém-instaladas no banheiro. Voltar, escolher um restaurante – sempre aquele, o mesmo – almoçar. Jantar. Ver um filme, talvez, ler um livro. Dormir. À espera de qualquer coisa.

Disseram que estava livre do câncer que apodrecia seus ossos, o milagre dos amputados. Preocupavam-se com seu silêncio, sua calma anestésica (socava o botão de emergência, naqueles dias, ninguém ouvia). Não tinha amigos. Não conversava com as pessoas. Mas notou Ricardo, que chegou de terno e ocupou a mesa de trás, sozinho com a filha. Talvez tivesse tomado coragem para se desfazer daquele amor histérico.

“Você conhece?”, Eugênia perguntou, notando o súbito interesse.

“Conheço não”, Adriana suspirou.

Ela nunca mais tinha ido ver o mar.

Conheça a autora

Goiana por nascimento e vocação, Fabiane Guimarães mora em Brasília e tem 24 anos. Formou-se em jornalismo pela Universidade de Brasília e atualmente trabalha no jornal Metro. Com contos publicados em antologias e revistas especializadas, ela negocia a publicação de seu primeiro romance, “A tristeza dos outros”.