Texto e fotos por  Rafaela Carvalho

Elas chegam, dezenas aos dias, e se aconchegam em cobertores improvisados no chão da estação de trem de Keleti Pályaudvar, em Budapeste, Hungria. Nos braços, os filhos, se são mães, e sempre o medo, se estão sós. Os maridos rumaram à Europa antes, para testar a jornada, ou ficaram para trás, para cuidar do pouco que a família ainda tinha em meio à guerra, à fome e à desordem de países como Síria, Somália, Eritreia, Líbia, Iraque ou Afeganistão. Estupro e doenças estão à espreita, mas as refugiadas se recusam a ir a hospitais, para não perderem o próximo trem rumo a qualquer lugar definitivo.

A cada parada, as crianças perguntam se aquele é o destino final e elas explicam, para convencer a eles e a si mesmas, que ainda existe esperança em algum cantinho do velho continente. E assim seguem, transformando o desamparo da guerra em desamparo da fome, o horror das bombas em horror das ruas e campos de refugiados.

Segundo um relatório da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) de 2014, mesmo depois de chegarem a um novo país, as refugiadas sofrem para encontrar um lugar para viver e, muitas vezes, o que conseguem são casas sem as mínimas condições, sem eletricidade, trancas nas portas ou banheiros. Quando buscam alojamentos, acabam dividindo espaço com desconhecidos, que chegam a assediá-las e até a estuprá-las.

No fim das contas, não deixaram o medo em seus países de origem. Segundo o International Rescue Comittee, 33% das mulheres sírias, por exemplo, deixavam de sair de casa por medo e 60% confessavam viver em constante insegurança em seu país. Na condição de refugiadas, 25% delas ainda convivem com o medo diário de sofrerem ameaças, humilhações ou qualquer tipo de abuso. Quando questionadas sobre os motivos, elas dizem que são consideradas estranhas nos novos países e condenadas por usufruírem de um sistema público ao qual não têm direito.

No entanto, para quem ainda está em meio à guerra ou passando fome em sua terra natal, a fuga para outros países ainda parece uma boa opção. Só em 2015, mais de 380 mil refugiados se arriscaram na travessia até a Europa pelo Mar Mediterrâneo – desse total, 130 mil fizeram o trajeto no mês de agosto. 2.850 desapareceram ou morreram antes de chegar em terra firme. Destes, 13% são mulheres, ou seja, cerca de 50 mil apenas este ano.

Desde a última semana de agosto de 2015, a capital da Hungria tornou-se o principal palco desta crise. Na estação de trem mais movimentada da cidade, o sentimento coletivo é de ansiedade: diariamente, centenas de refugiados chegam à Keleti Pályaudvar, o ponto de entrada na Europa, e aguardam trens que sigam para o oeste europeu, onde esperam recomeçar suas vidas.

Jornada dura

Na Síria, Afeganistão e Iraque, o estado de guerra reina devido a disputas entre grupos rebeldes, terroristas ou facções religiosas com governos locais enfraquecidos. Na Líbia, Eritreia e Somália, os conflitos entre milícias somam-se à pobreza, à falta de oportunidades de trabalho e de escolas para as crianças. Estão aí os ingredientes que fermentaram nessas mulheres, durante anos, o desejo de fugir para os países vizinhos e, mais recentemente, para a Europa.

O trajeto de centenas de quilômetros, feito, na maioria das vezes, de forma ilegal, é sempre regado à insegurança. Os meios de transporte variam a cada trecho da viagem: ônibus, quilômetros de caminhada ou até mesmo embarcações ilegais. Ao chegar na Hungria, encontram mais espera enquanto o Primeiro Ministro húngaro Viktor Orban negocia a passagem dos imigrantes com os países vizinhos.

Uma caminhada rápida entre os colchões e cobertores espalhados pela estação de trem já é suficiente para perceber o perfil padrão das viajantes: são, em sua maioria, jovens entre 20 e 35 anos, muitas viajando sós. Quando estão sem a companhia do cônjuge e com medo de enfrentar uma sequência de situações de risco, elas se recusam a peregrinar de forma independente e formam grupos com amigos ou outros familiares.

Desafios da espera

As mulheres que acampam na Keleti Pályaudvar são o primeiro alvo dos voluntários. As primeiras coisas que pedem a eles, ao chegar, são papel higiênico, lenços de papel, absorventes, barracas de acampamento e água morna para a mamadeira dos bebês. “Agora, estamos procurando tradutores que possam ajudá-las a conversar conosco para falar de suas necessidades”, informou uma alemã, voluntária da ONG Migration Aid, que está recebendo a maior parte das doações. “Houve uma mulher que deu à luz um bebê na semana passada e não sabia como pedir socorro”, acrescenta.

Babar Baloch, porta voz do ACNUR em Budapeste, observou um aumento significativo no número de famílias migrando para a Europa no último ano. “Vê-se mais mulheres, grávidas ou com filhos, muitas vezes recém-nascidos. E o maior problema é que a Hungria é apenas uma zona de trânsito para os refugiados. Quando essas pessoas adoecem, recusam-se a ir para hospitais da região por medo de perder o trem.”

A falta de assistência a pessoas em situação de maior vulnerabilidade, como grávidas e crianças, torna a situação ainda mais dramática. O porta-voz lembra-se de uma mulher grávida de 7 meses que, ao chegar na Hungria, percebeu que seu bebê não se mexia mais. “Quando ela foi atendida por um médico, nos demos conta de que o bebê estava sem vida. Acreditamos que as longas caminhadas sem nenhuma assistência e o consequente desgaste físico e psicológico foram responsáveis pela morte da criança, ainda na barriga da mãe.”

Apesar dos inúmeros obstáculos que enfrentam, porém, a esperança e a coragem dessas mulheres são teimosas. Conheça, a seguir, as histórias pessoais de algumas delas.