Ilustração: Ana Matsusaki

 

O que não falta neste país é mulher como eu: pobre, trabalhadora, que rala desde cedo e, por isso, não consegue estudar. E pior ainda, que encara uns empregos superabusivos porque acha que é o máximo que consegue. Quer dizer, eu era assim, até que descobri que eu não preciso aguentar desaforo de patrão, porque quando você é trabalhador@, honest@ e chei@ de vontade, sempre dá pra resolver! Ouve meu conselho: mulherada, ninguém precisa aguentar chefe abusivo, não!

Mas não é fácil perceber isso. Eu, por exemplo, passei anos e anos em um emprego que ninguém devia aceitar.  

Em 2000, comecei a trabalhar em um café aqui em Brasília que passou por vários donos até parar nas mãos de uma família doida  – aí começou meu pesadelo! A dona gritava muito com as empregadas e nos expunha ao rídiculo na frente dos clientes. Eu morria de vergonha! Sem falar que fazia de tudo pra nos diminuir: ficava falando das filhas como se elas fossem artigo de luxo e rebaixando a gente como se não fôssemos nada! Eu chegava em casa chorando muito, era horrível.

Trabalhava 12 horas por dia, nas quais só podia ir ao banheiro duas vezes e, quando não aguentava, lá vinha a chefe reclamar que nosso banheiro custava caro para ela. Água potável, isso era só para os clientes e os proprietários. Para nós, só água da pia mesmo. E o que ela fazia com as mães então! Antes mesmo de ter minha filha, eu via como as moças que tinham filhos sofriam. Elas não podiam levar as crianças ao médico ou ir às reuniões da escola e, quando faziam isso, a megera as tratava com indiferença pra que se sentissem mal. Na verdade, a gente nem podia ficar doente, porque a doida não deixava a gente folgar! Era muita pressão psicológica.

A dona do café vivia dizendo que a gente era pobre, sem educação e que nunca ia ter nada melhor na vida. Quando eu falava que queria voltar a estudar, ela ria da minha cara. Pior foi que ela conseguiu me convencer e, por anos, eu achei que não era capaz de nada melhor e fui aceitando aquela situação toda.

Até cheguei a sair de lá por um tempo mas, quando minha filha nasceu, as contas pra pagar me fizeram voltar. Passei mais sete anos aguentando os maltratos da patroa maluca. Sem tempo pra fazer nada por mim, eu ralava!

Mesmo assim, nunca desisti de sonhar. Meus clientes sempre brincavam comigo, dizendo que eu tinha um sorriso cativante, era esperta e poderia até ser jornalista. Imagina! Nem Ensino Fundamental eu tinha. Queria muito voltar a estudar, mas como? Não dava tempo e eu não achava que podia. Imagina então ser jornalista…

Foi só quando eu comecei a namorar meu marido atual que as coisas começaram a mudar. Ele é todo estudioso e, sabendo que eu queria voltar para a escola, começou a me estimular. Eu dizia que não era capaz e ele nunca aceitava. Até que me convenceu a fazer a matrícula na quinta série, lá em 2011. Mas acho que o mais importante foi que ele me fez voltar a acreditar em mim, que eu podia conseguir um monte de coisa melhor que aquilo. Então eu fiquei decidida e, quando começou a escola, saía na hora e nem dava bola para as reclamações da patroa.

Fiz a quinta, a sexta e um pedaço da sétima série ainda trabalhando lá nesse café. E não era fácil, eu ficava exausta. Por isso, cheguei perto do meu limite. E como eu estava mais confiante, andava discutindo bem mais com meus patrões, para ter meus direitos. Até que, um dia, eles me mandaram lixar umas barras de ferro enferrujadas, porque não queriam pagar gente especializada pra fazer o serviço. Uma tarefa bem pesada pra quem servia no balcão, né?

Quando a patroa gritou comigo por alguma besteira, eu estourei. Gritei de volta, falei que aquilo não era nosso trabalho e que a gente merecia coisa melhor. Ela disse que se eu quisesse sair, podia sair, mas que não ia achar outro emprego. Mesmo assim, eu disse que tava fora. Fui chorando até o pai dela, que cuidava das contas, e ele não aceitou me demitir. Ou seja: saí de lá com uma mão na frente e outra atrás.

Vocês entendem o que aconteceu? Eles me deixaram numa situação em que eu tive que pedir demissão, em vez de me demitirem. Isso é muito errado, mas muito normal! Mas eu não deixei barato, procurei um advogado, entrei na Justiça e, no ano passado, consegui todos os meus direitos trabalhistas, inclusive o FGTS!

Hoje eu arrumei outro emprego, em uma lanchonete, onde sou muito bem tratada e reconhecida. Fui até promovida a gerente! E, claro, tô aqui correndo atrás do sonho de virar jornalista! Sou prova viva de que chefe abusivo tem que passar longe.

Sua história é parecida com a minha? Ou acha que seu chefe é abusivo, mas não tem certeza? Olha esta listinha do que pode ser um patrão abusivo:

  • Faz você trabalhar mais horas do que o combinado;
  • Não reconhece seu trabalho, só critica, sem nunca te ajudar a melhorar;
  • Não te dá oportunidade de crescimento;
  • Faz pressão psicológica para que você se sinta na obrigação de trabalhar mais ou para que você se sinta desqualificad@ e incapaz de voltar ao mercado;
  • Dá condições de trabalho ruins, como falta de equipamentos, temperatura muito quente ou fria, falta de banheiros ou água potável, etc;
  • Não respeita os seus direitos trabalhistas, como carteira assinada, férias e licença maternidade;
  • Entre várias outras coisas que podem agredir você fisica e moralmente.

Se você acha que está passando por isso, pula fora! Mas vai com calma. Meu principal conselho é pedir para ser demitid@, mas se acontecer como foi comigo, pede demissão e corre para um advogado para exigir seus direitos e até, se for o caso, danos morais! Mas antes de sair, lembre-se de ter provas do que faziam com você: fotos, alguém que viu alguma coisa e possa falar, e-mails, tudo vale! O importante é provar pro juíz o que você passou.

Além disso, não se prenda por medo de não arrumar outro emprego. Se você é honest@ e sabe trabalhar, as coisas vão aparecer. O que não pode é ficar se submetendo a esses patrões, não!