V aias e gritos de “machista!” silenciaram o cineasta Claudio Assis no último sábado, durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É o novo capítulo de uma polêmica que só cresce e começou quase um mês atrás, quando Anna Muylaert, diretora do filme “Que horas ela volta?”, escolha brasileira para a competição do Oscar, foi repetidas vezes interrompida por Claudio Assis e outro cineasta pernambucano, Lírio Ferreira, durante um debate em Recife.

O capítulo pernambucano desta história aconteceu dia 29 de agosto, e começou logo depois da exibição do filme “Que horas ela volta?”, quando a diretora Anna Muylaert chegou à sala do Cinema do Museu, na Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, acompanhada dos cineastas Claudio e Lírio – amigos de longa data, parceiros em trabalhos, tinham tomado cerveja juntos.

Claudio subiu ao palco sem ser convidado, desautorizou o curador e mediador da Fundaj, Luiz Joaquim, e definiu que Anna deveria sentar-se na beirada do palco, e não na cadeira que havia sido reservada para ela. Lírio ficou na plateia e os dois passaram a se alternar em entusiasmadas falas de apoio ao filme: “que filme do caralho!”, “é o filme do ano!”.

Luiz Joaquim apresentou o filme – e quando mencionou a atuação de Regina Casé, Claudio Assis a chamou de gorda, rindo. O mediador passou para o debate, com perguntas da plateia. “Que pergunta merda”, intervinha Lírio Ferreira, às vezes. Claudio interrompeu a plateia e a própria Anna, querendo também ele perguntar. Em suas respostas, a diretora era frequentemente interrompida por palmas puxadas por eles, ou vivas, ou os mesmos comentários, de novo: “que filme do caralho!”, “é o filme do ano!”.

O diretor de arte de “Que horas ela volta?”, Thales Junqueira, pernambucano como os dois cineastas, se queixou, mas não foi ouvido. Constrangidas pela dificuldade da diretora de falar sobre seu filme, dezenas de pessoas da plateia deixam a sala.

O episódio ganhou as redes sociais numa espiral de polêmicas. Grupos feministas publicaram um manifesto: “mais um retrato da sociedade patriarcal em que vivemos – um espetáculo de machismo, homofobia e gordofobia”. A Fundaj anunciou uma punição inédita: em nota, avisou que os filmes de Claudio Assis e de Lírio Ferreira estão banidos dos espaços da Fundação durante um ano.

Em Brasília, sábado passado, foi a vez de Claudio Assis sentir na pele o peso do silêncio imposto. Mulheres na plateia do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro estavam decididas a não deixar sua voz ser ouvida. O ator Matheus Nachtergaele, protagonista do longa “Big Jato” de Claudio Assis, salvou a cena. Sem ser hostilizado pela plateia, discursou: “podemos vaiar nossos horrores e aplaudir nossas maravilhas”. Na sequência, Claudio Assis tentou novamente falar. Novamente, foi abafado pelas vaias.

Machista, não: ególatra

Logo depois do episódio recifense, diante da repercussão negativa de sua atitude com Anna, Claudio Assis pediu desculpas em sua página no facebook. Em Brasília, em debate no dia seguinte à vaia que sofreu, insistiu que sua obra cinematográfica é prova de sua resistência à opressão: “As pessoas estão atirando pedras na pessoa errada. Se forem assistir a meu cinema, vão ver o quanto eu estou denunciando essa sociedade e o machismo”. Procurado, ele não quis dar entrevista sobre a relação das vaias com o que aconteceu em Recife.

Já Lírio Ferreira disse que “só queria dar as boas-vindas” a uma amiga em sua cidade. “Tentei falar e fui mal compreendido”, explicou. Ele pondera que não agiu por machismo: “a gente vive em um país machista, a causa é urgente. É tudo muito difícil para a mulher, mas não foi o que aconteceu ali. Não estava cerceando a voz dela. Talvez tenha sido algo mais ególatra do que machista”.

Mas para a diretora Anna Muylaert, “esse excesso de narcisismo e de egolatria é o que caracteriza o machismo”. Ela classificou de “coronelista” a agressão que sofreu: “eles são os coroneis do cinema pernambucano e isso lhes dá o direito de estragar a festa das duzentas pessoas que estavam ali”.

A socióloga Lourdes Bandeira, ex-secretária adjunta de Políticas das Mulheres do governo federal, analisa: “nem só como machismo nem só como coronelismo: é um reflexo do patriarcado que marca ainda mais agudamente aquela região do país. E ao patriarcado é dado o direito do pertencimento, é o patriarca que faz as regras”.

Para a antropóloga Rita Segato, é importante contextualizar o episódio no espaço onde tudo aconteceu. Ela trabalhou na Fundaj, em Recife, durante a ditadura militar, e acha que aquele palco tem um papel na cena que se desenrolou ali. “Eles se sentiram tão confortáveis porque aquele lugar está marcado por uma história nefasta de servilismo, de feudalismo. É um espaço de posse – que luta para se democratizar, mas cuja história não pode ser negada”, acredita.

“Anna ali era uma forasteira”, concorda Lourdes Bandeira. “E uma forasteira com uma obra artística que traz em si uma denúncia social contra aquele próprio patriarcado, uma obra artística que remonta à escravidão e acessa uma memória social coletiva que os abriga”.

Ela completa: “sem falar no desejo inconsciente e provavelmente jamais confessado de que eles gostariam de ter feito aquele filme”.

Machismo do começo ao fim

Anna Muylaert afirma que, desde que o filme começou a despertar interesse no mercado internacional, o tratamento dos companheiros de profissão mudou. “Em vez de terem uma atitude de respeito comigo, os homens do mercado começaram a me fazer bulliyng, tentando me diminuir – de alguma maneira tentando me convencer enfaticamente de que eu não era a causa do sucesso do filme, mas, sim, algum negócio ou contato de um intermediário qualquer”.

Ela revela que, mesmo depois de vender milhares de dólares com “Que horas ela volta?”, seu representante na Europa se recusou a reunir-se com ela. “Ele acredita que as vendas se devem apenas à sua capacidade e nada ao valor do filme em si”, desabafa Anna.

“Essa postura do ‘você é apenas um detalhe aqui’ eu estou sentindo em muitos âmbitos, inclusive com vários parceiros”.

Anna é a primeira mulher a ser escolhida para concorrer ao Oscar pelo Brasil em trinta anos – e mesmo sendo a estrela da festa, continua se sentindo de fora de um clube feito para homens. Na primeira sessão de seu filme em Berlim, conta, Walter Salles foi jantar com o coprodutor do filme. “Soube que eles falaram do filme a maior parte do tempo, mas eu não fui convidada. É claro que eles tem o direito de não me convidar, mas isso é uma constante”.

“Quando surgem encontros de poder, a mulher nunca é convidada. Mesmo que ela seja o prato da noite”.

Ela faz um paralelo entre o que vive agora e o isolamento político da presidente Dilma Rousseff em seu próprio governo. “Há algum tempo saiu na Folha que o (empresário Abílio) Diniz achava que deviam se reunir Lula, Temer e FHC para discutir o futuro do país. A Dilma sequer foi citada. É o que eu quero dizer: mesmo sendo eleita presidenta da República, a sociedade machista não lhe dá legitimidade, não está interessada no que ela quer dizer”.

Pesadelo

Carol Almeida, crítica de cinema que participou do debate em Recife, lembra que toda mulher já foi silenciada por homens tantas vezes que já internalizou isso como algo corriqueiro. “É perverso porque nos sentimos incompetentes por sermos interrompidas. Parece aquele pesadelo em que você tenta gritar e não consegue”.
Para ela, é muito simbólico que a apoteose da interrupção feminina tenha acontecido num debate justamente sobre “Que horas ela volta?”. “Anna ali era Jéssica, a personagem do filme – ao mesmo tempo empoderada e acuada no seu papel feminino. Nas duas vezes em que a personagem é assediada por um homem, para se desvencilhar do assédio, ela pede desculpas”.

Correndo o risco de triscar na culpabilização da vítima, surge a inevitável pergunta: por que Anna Muylaert – e o mediador da Fundaj, Luiz Joaquim – não reagiram na mesma hora ao desrespeito?

“Eu tentei me posicionar e me posicionei, mas com paciência. Acho que todos tivemos excesso de paciência e por isso no dia seguinte a coisa explodiu. Eu, a Fundação ou o público deveríamos ter sido mais agressivos, mas ninguém foi”, opina Anna.

A socióloga Lourdes Bandeira explica de onde isso vem. “Essa tolerância, essa falta de vontade de brigar, são heranças de uma maternagem frequentemente esperada do feminino. Uma postura sacrificial, de mãe, que esconde uma opressão das mais profundas”.

A socióloga diz não ter se surpreendido nem com as agressões nem com a falta de uma reação da mulher ofendida ou da plateia. “O que me surpreendeu foi a reação da Fundaj com uma resposta enfática à repercussão da sociedade”, diz. Rita Segato também reconhece na punição ares de novos tempos da Fundaj. Anna Muylaert, embora apoie uma punição, disse que ela não deveria se estender aos filmes dirigidos por eles. “Erros pessoais não devem comprometer esforços coletivos”.

Mas e o filme?

Há quem argumente que os novos capítulos da polêmica tiram o foco do enredo de “Que horas ela volta?” e das questões sociais profundas que ele aborda. Para Rita Segato, essa discussão não está separada do debate sobre a sociedade brasileira como um todo – que encontra no próprio enredo do filme um gigantesco espelho.

“O feminismo não é um gueto, está imerso em várias outras questões. Tudo o que acontece está dentro da cena histórica”.

Assim como Claudio Assis, muitos homens na plateia do Cine Brasília pareciam não entender a insistência das vaias que se referiam a um episódio de quase um mês atrás. Para Lourdes Bandeira, isso reflete o grau de engajamento desta nova geração de mulheres: “As jovens estudantes que eu conheço conquistaram autonomia e têm todo o compromisso com essa nova identidade feminina, enquanto a maior parte dos rapazes estancaram, não fazem a autocrítica. Pensam como seus pais. Vai haver uma defasagem entre meninos e meninas desta geração”.