Fiquei muito feliz quando me deram essa coluna na Revista AzMina. Disse “vou abalar, deusa!” e saí entrevistando e pesquisando. O que eu e essa revista queremos mostrar é que eu não escrevo só pra mulher trans. Eu sou mulher como qualquer uma! Eu quero abrir a cabeça das pessoas, mostrar que nós, trans, somos seres humanos, que nós amamos e sofremos como todo mundo e, por trás de nós, há famílias guerreiras que nos amam. Vamos abrir a cabeça, gente!

E vamos falar de família? Todo mundo acha que família de travesti é tudo rejeição, mas tem muita que ama e sofre com a gente. Por isso, quero falar especialmente das mães de travestis. Essas mulheres sofrem que só por Deus! Ser mãe de uma adolescente já é difícil, imagine de uma travesti? A gente encara a violência da rua, o preconceito, e muitas só arrumam trabalho fazendo ponto mesmo. Tem um monte de coisas que causam sofrimento nelas, deusa.

Luísa Marilac se maquiou para chamar a atenção para a violência contra travestis

Que nem a dona Lázara Alves da Silva, de 67 anos, mãe da minha amiga Roberta. A dona Lázara me conheceu quando eu era menininho ainda (abafa!). A Roberta era criança e a mãe já percebia que ela cruzava as pernas pra tirar foto 3X4! Aos 12 anos, ela começou a correr a ala das bicha e eu comecei a andar com ela! E sempre achei interessante que, independente de ser Roberta ou ser Marquito, Pablo, Astolfo, João, os pais tinham com ela o mesmo carinho que tinham com os outros dois filhos héteros.

Fiz questão de entrevistar a dona Lázara, pois é uma das mulheres que eu vejo que apoia de verdade a filha trans. A Roberta tem 43 anos (bicha, a senhora tá velha, hein?) e ainda vive com a mãe e tudo. Dona Lázara fala que, quando morrer, quer que os outros filhos cuidem da Roberta para que ela não fique sozinha. Mas, faz alguns anos, a Roberta tomou um tiro na rua e quase matou a mãe do coração!

A dona Lázara me contou: “Quando receberam a notícia aqui em casa, não queriam me contar o que aconteceu e eu tive que insistir. O pai pagou um hospital particular pra ela e, assim que cheguei, ela já tava na sala de cirurgia!” (Deus é maior!). “Faltou um milímetro pra bala pegar na espinha e ela quase ficou paralítica, além de ter perfurado o intestino e ter que refazer todinho… é muito triste lembrar. Eu nunca vou deixar minha filha. Nunca, nunca, nunca. Enquanto eu tiver vida, ela vai estar bem cuidada” – e a bichinha começou a chorar, coitada!

É forte, é triste e peço desculpas por ter feito a dona Lázara lembrar dessas coisas. Eu sofri e senti essa dor junto com ela, sabe?

Outra que tem sofrido um bocado é a Edileuza Santos, de 38, que tem, ainda por cima, uma filha adolescente! Aos 3 anos descobriu que o filho não era menininho igual aos outros. “Ela andava rebolando desde cedo”, ela conta. “Pra mim foi tranquilo, pro pai não foi. Tivemos que separar”. O pai nem convive mais com a Eduarda, que hoje tem 19 anos e trabalha na rua.

“Gay eu não me importava, mas saber que ela era travesti foi muito difícil de aceitar”, a mãe disse. “Você sabe como é, travesti sofre muito, é criticada e não é aceita pela população. Sentia muita pena das travestis, medo das gozações.”

Tudo que ela queria era que a filha dela arrumasse um emprego bom e não ficasse na rua se prostituindo.  Isso é muito difícil porque as oportunidades são muito ruins e tem que batalhar muito pra achar outra coisa. Eu tento passar pras mulheres trans, nos meus vídeos, que, na rua, você só aprende apanhando, sofrendo, e aí entende que aquilo ali não é vida. Que elas têm que tentar outros caminhos. Eu aprendi com os erros e tento convencê-las a não aprender com os erros delas, mas com os meus.

Edileuza ainda disse: “Eu não queria que ela fosse pra rua se prostituir, isso dói muito em mim. Ela já levou umas pancadas. Eu queria que ela saísse da rua e arrumasse um emprego. Eu queria mudar só isso. Não me importo que seja travesti nem nada, só que saia da rua. Mas ela diz que prefere ficar na rua, onde ganha bem, do que num salão ganhando mil reais”. – Já eu, deusa, prefiro um trabalhinho de mil reais do que ficar em beira de estrada. Deus que me defenda!

Eu até tentei entrevistar uma terceira mãe, de uma travesti que morreu, mas ela chorou tanto que não conseguiu falar, coitada.

O pior de tudo é que essas mães nem sabem que existe o movimento LGBT. Eu perguntei pras duas e nenhuma sabia. Ninguém do movimento foi lá dar apoio psicológico quando a Roberta tomou tiro ou foi proteger a Eduarda quando ela apanhou na rua. O movimento LGBT não chega às travestis da periferia e às nossas mães. Deviam pensar em ter ação para nós também!

Porque no fim, deusa, amor de mãe é tudo igual… Da minha, da sua, de toda mulher trans. Os desafios e as covardias são diferentes, mas a gente é gente igual. Abre essa cabeça!