De Guangzhou, na China

 

Desde muito cedo descobri a minha vocação, a minha arte: usar tecidos diferentes para criar peças de vestuário. Trabalhei com moda desde que me conheço por gente. E ela sempre foi, para mim, um caso de amor e ódio, graças à dualidade que encontrei nesse sistema: individual X coletivo; consumo em massa X liberdade de expressão; visibilidade enquanto profissional X baixos salários… Estar na China e me confrontar com o trabalho análogo à escravidão usado nas fábricas que produzem as minhas peças fez com que eu questionasse novamente todo o sistema de moda que conheço. Meu mundo e meu coração viraram de ponta cabeça!

Na moda, nada é preto e branco, tudo depende de como o conto é bordado. Lá não foi diferente, e eu me vi dominada por paradoxos. Queria justificar tudo aquilo através da ótica cultural, me convencer de que aquelas condições eram normais e seguiam a costumes e uma educação extremamente diferentes dos nossos. Ao mesmo tempo, desejava que eles vissem através dos meus olhos, que percebessem que aquilo era horrendo e abusivo. “Será que ninguém se dá conta?!”, eu gritava por dentro.

Na minha cabeça, eu comparava a ostentação que existe nos escritórios das exportadoras à vida sofrida que os trabalhadores levam nas fábricas. Observava em cada rosto o suor de um trabalho árduo, quase infinito e não valorizado, as crianças descalças ao redor, sem se dar conta do perigos das agulhas invisíveis espalhadas pelo chão. Conforme eu ia vivenciando cada experiência, o determinismo me consumia. Eu não via futuro para aquelas crianças que corriam, riam e brincavam no meio dos tecidos e máquinas sem entender o futuro que as espera: crescer, costurar e morrer.

Chorei por cada uma dessas gotas de suor que foram derramadas no desenvolvimento de minhas peças mal pagas. Me senti a pessoa mais escusa da terra, suja por meus sonhos adolescentes de mostrar a minha arte através do vestir. Eu, que passei minha adolescência entre tecidos e a máquina de costura de minha avó, entre os trabalhos voluntários e o sonho de transformar o mundo, era e sou parcialmente responsável por todo esse sistema de descaso e sofrimento.

Fiquei em uma encruzilhada: devo questionar o sistema de moda e transformá-lo ou abrir mão de minha profissão? A moda está inteiramente vinculada ao sistema capitalista, no qual o oportunismo impera. Dentro dessa lógica de oportunismo (leia-se “encontrar oportunidades para tirar vantagens de algo ou alguém”), a moda não está só ligada ao trabalho análogo à escravidão. Quantos dos meus amigos, afinal, não estagiaram de graça para estilistas renomados apenas porque eram renomados? Quantos alunos de faculdade não trabalham nos bastidores dos desfiles e não ganham nem o transporte ou a refeição? Não estou dizendo que isso é um trabalho escravo, pois tudo pode parecer o que lhe convém conforme o conto é bordado (como disse acima), mas estar na China e perceber onde o oportunismo humano pode chegar me fez questionar as pequenas desumanidades do sistema de moda.

Todos sabemos dessas grandes e pequenas desumanidades. Por que não as questionamos? Como estamos bordando esse conto?